Prólogo
( Trilha sonora: Mood Indigo - Duke Ellington )
Entre o final da década de oitenta e o início da seguinte... Ah! A publicidade que eu tanto desejava; já estava até meio encaminhado, num curso técnico da área. Foi então que vim a conhecer a Erika. E minha concentração para os estudos desandou por completo.
Foi o começo do namoro mais desastroso que já tive até hoje.
E se... Aquela menina jamais tivesse aparecido em minha vida ? . . .
Introdução a là informática
# Localizar: "Erika" • • •
pesquisando C:/ • • •
1 arquivo encontrado
Clique direito nele; EXCLUIR !
Ainda não satisfeito, vou lá tacar fogo na lixeira:
Clique direito; ESVAZIAR LIXEIRA !
Tem certeza de que deseja excluir "Erika"?
Sim, sim, SIM! puf!
( sumiu ) #
Capítulo 1
1988. Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado. FECAP, em São Paulo. E lá estou, sentado na ala intermediária da sala - não tinha conseguido vaga no fundão, ah! o fundão... - a observar os tipos ali presentes.
O que mais se via eram verdadeiras caricaturas dos chamados mauricinhos e patricinhas. Rapazes com seu indisfarçável orgulho do corpo torneado a base de horas e horas de academia - e anabolizantes também, vai saber? - e as moçoilas, quase tão embrulhadas de grifes quanto um piloto de fórmula 1 e seus patrocinadores, a ostentar aquele bronzeado de quem havia retornado de Guarujá ontem de tarde. Outras "tribos" também estavam presentes: A dos indiferentes a tudo e a dos CDF's. E eu, o que era? Apesar do tênis Nike de cano (cano?) alto e uma ou outra roupa Levi's americana, não pertencia ao grupo da ostentação. Eu sempre acabava na 'plebe rude' da sala: Os nerds. *
Na minha concepção, o nerd se diferencia do CDF por ser mais tolerante aos vícios. E mais! O CDF é capaz de recusar uma noite de sexo em plena época que antecede as provas bimestrais, coisa que o nerd não faria. Ele vai transar e depois fica com os remorsos. E a nota baixa nos resultados.
Mas, voltando a sala...
Capítulo 2
Aos poucos, fui me acostumando ao novo ambiente. A convivência diária foi evidenciando pessoas com as quais eu tinha mais afinidade: Paulo, o desenhista do fundão; Dárcio, o Raul Seixas da publicidade; Adriana, a japolaca (mestiça de japonês com polaca) mais linda que já vi até hoje; Julieta, a japonesinha que lidava com flores mas que não era uma que se cheirasse; Sofia e seu cabelão... entre outros personagens.
Não creio que eu tivesse a menor chance de namorar qualquer uma das garotas citadas. Muito menos as demais que estavam na mesma sala... ou no mesmo colégio, que fosse. Ah! Como eu gostava da área! Só não me atraía muito a sociologia - talvez por eu ser anti-social?! - mas o português, nossa amada e sofrida língua, seus recursos, seus meandros, seus subentendidos; Ê coisa boa! E até que eu ia bem nessa matéria. Persuadir, convencer. Também atrair e agradar. Gravar, cravar no topo da mente de cada consumidor ou cliente em potencial a nossa bandeira. Tais desafios eram meu deleite.
Talvez ainda sejam até hoje, mas sem os propósitos comerciais de então.
Da primeira bifurcação no desenrolar desta fantasia, um caminho já foi tomado: O profissional. ( Deixo o amoroso jogado no fundo do armário, trancafiado num baú ... (risos) solidamente imaginário cuja chave do trinco está perdida )
WENDELL: Mesmo tomando outro rumo... a vida insiste em trazer as experiências que a gente precisa viver... por isso tantos erros, acertos, até algumas trapalhadas memoráveis e outras até que gostaríamos de apagar definitivamente (quero o algoritimo de deleção... - não se esqueça de passar um programa para zerar o espaço livre, senão ainda pode se recuperar o arquivo deletado....). O amor nessa linha temporal fica relegado ao segundo plano... mas tem pessoas que adoram dificuldade e gente de conteúdo (como vc); creio que alguém apareceria para te desconcentrar novamente e lhe fazer repensar o caminho trilhado... Adorei o periodo escolhido... final da década de 80; passando para a década de 90, que surpresas o futuro reservaria... a popularização da Internet e do computador pessoal, o surgimento do celular... o dvd surge para tirar espaço do vinil. É um cenario de oportunidades e mudanças... a globalização começa a dar os sinais de vida. Certamente investindo seu tempo no aprendizado o Ricardo abriria um negócio próprio e se resolvesse aposentar os MSX e a vender computadores (enxergando a oportunidade de mercado...)
ALINE: E foi o que ele fez. Estava indo tudo taum bem na sua vida proficional... Ele estava mtu bem financeiramente... seu novo negócio era maravilhoso e crecia cada vez +... Ele estava feliz + sentia q algo estava faltando... Foi qndo em um dia de chuva ele no seu carro importado ele ve uma moça correndo... e a reconhece... era Adriana akela moça linda da qual jah falamos... ele pensa um poko... e chama atenção dela... e oferece uma carona... no caminho os dois conversam bastante relembrando os velhos tempos entaum marcam um encontro... um jantar em um restaurante ali perto...
Capítulo 3
Hmmmm. Internet. A (1ª) onda dos provedores gratuitos e a difusão da rede. O BBS perdendo espaço, os 14.4Kbps sendo superados seguidamente. O 286, 386, 486... Sim, num mercado onde a palavra estagnação não existe, num universo onde novas tecnologias são produzidas a cada instante, os equipamentos se renovam constantemente. Era (e foi) um ramo comercial próspero.
Amanhã é o dia do jantar marcado. Mas... por que um jantar?
Pelo clima romântico, o ambiente propício a grandes declarações amorosas, com taças de vinho brindadas à luz de velas? Ei ! Não estou apaixonado por ela. Ah sim, mas é claro. Não tem nada a ver, é um jantar porque ambos detestamos o trânsito no horário comercial. E não poderia ser num final de semana porque cada um de nós já tem seus compromissos pra esse período.
Talvez seja o dia em que ela leve as crianças - Sim, ela já deve ter uns dois filhos - ao shopping, ao parque...
Falando nisso, fiquei tão surpreso em revê-la daquela forma inesperada que até me esqueci de perguntar se ela ainda está solteira. Ou melhor, se já está casada, pra não passar uma impressão errônea de que eu pudesse estar cantando-a. Ou será que mesmo assim daria a mesma impressão? Tsc! Ah! De que importa? A menos que seja um marido neuroticamente ciumento, não haverá problema algum num jantar. É só o reencontro de amigos.
Dentro da minha mente alguma coisa curiosamente sussura : Íntimos ?. Não, não. Apenas uma amiga de escola. Uma boa amiga.
Intermezzo
... e me lembrei de um programa da Rede Globo... ( abre aspas )
E agora, se vc acha que Adriana já está casada, tem dois filhos e está grávida de 2 meses do terceiro, ligue para 0800 XX XX;
Ou então, que ela ainda está solteira mas por ter se descoberto ser homossexual durante esse tempo que se passou, ligue para 0800 XX YY;
E finalmente, se vc acha que ela vai 'dar o maior bolo' no Ricardo, deixando-o esperando sozinho na mesa do restaurante por horas e horas até que o garçom apareça para pedir que ele se retire "pois já estamos fechando, senhor", ligue para 0800 YY XX.
Dê a sua opinião. A ligação é gratuita. Estamos aguardando o seu voto, pois aqui...
Você decide!
( fecha aspas )
Capítulo 4
Cheguei atrasado ao local marcado.
Não fora proposital; como eu ia prever que um pneu resolveria murchar bem no meio do caminho? Cheguei. Suado, ofegante, tentando disfarçar o encardido nas mãos. Olho em redor, na esperança de não vê-la, pois assim eu teria tempo de me recompôr do imprevisto, além de não fazer feio perante ela, mas...
Ai, ali está ela. Linda, por sinal. Primeira coisa, me desculpo pelo atraso; me atrapalho todo tentando explicar o que havia acontecido. Ela calmamente me diz pra ficar tranqüilo, pois o noivo dela tinha deixado-a ali há uns 5 minutinhos. "Ah, o noivo, claro. E onde está ele?" - pergunto. Ela me responde que ele tinha resolvido ir jogar boliche com os amigos, naquela noite.
Adriana está noiva, quem diria... Tsc! Mas é lógico que está. Uma mulher destas não ficaria sobrando de jeito nenhum, mas... por que o noivo não a acompanhou? Ele confia tanto assim nela? Ou é eu que sou inofensivo? Ah... do jeito que sou abobalhado, deve ter sido isso mesmo. Que se fosse eu o noivo dela, não a deixaria se encontrar com um sujeito que nem conhecesse e...
- Ricardo... Ricardo!!
- Ahn? O que?
- Até quando você vai deixar o garçom aí do seu lado te esperando?
- Ah sim, claro. (despertando do delírio) Vocês têm lasanha? - O garçom, visivelmente aborrecido com a demora, vai direto: "Bolonhesa ou molho branco?"
- Bolonhesa, por favor.
- Pra beber? - Cerveja. Não, não! Suco de laranja. Ah, também não. É isso, um guaraná!
O garçom anota o pedido e se vai. Divertida com meu embaraço, ela me pergunta se está tudo bem. Respondo que sim e nesse momento percebo uma sujeira embaixo do braço. Peço licença pra ir ao banheiro, me limpar.
Capítulo 5
De volta e devidamente limpo, pergunto a ela se tem visto a turminha do colégio. A resposta que me vem é vaga, ela parece apreensiva com algo e logo me comenta: - Notou aqueles três engravatados que passaram aqui ainda há pouco? Estou estranhando-os; entraram olhando para os lados e foram direto lá para no fundo do restaurante... Não dou importância para as palavras dela:
- Ah! Devem ser só uns conhecidos do dono - e volto ao nosso tempo de colegiais.
Passados alguns minutos, começo a estranhar a demora:
- Geralmente trazem logo a bebida, mas já fui e voltei ao banheiro e até agora nada do meu guaraná? - Olho em direção a cozinha e vejo dois dos tais engravatados. Parecem preocupados com alguma coisa e resolvem sair, ao que me parece. Quando estão próximos da nossa mesa, surge na entrada do salão um policial militar que logo reconhece um dos criminosos cuja descrição havia recebido. Ele dá a voz de prisão. Um dos procurados reage e atira no policial, mas não consegue acertá-lo. Revidando, o tiro do policial é quase certeiro, crava-se no ombro direito do primeiro atirador, que cai.
Pânico entre as mesas, a maioria deitada ou agachada sob as mesas, ouvem-se gritos, gente chorando. Meu coração batendo em desabalada carreira, também agachado atrás de uma cadeira e tremendo de medo, súbito olho para Adriana e descubro o pior: Sob a mira de uma pistola, ela é mantida refém.
Deus do Céu... - fico pensando - Se ao menos eu fosse mais corajoso, ou... sei lá, se tivesse os mesmos poderes de um Jackie Chan em um filme...
Chegam reforços policiais ao local. Todos param ali na entrada, imóveis. "Não atirem! Ele tem uma refém!!", alerta um deles ao grupo. Dois policiais tentam o diálogo, convencer o criminoso a libertar Adriana. Mas ele permanece impassível, exige a presença de jornalistas ali, antes de iniciar qualquer negociação. "E não tentem fazer gracinhas, senão eu mato esta mulher e todo mundo que está aqui!!" - brada o marginal.
Capítulo 6
Adriana está pálida, tem os olhos vidrados, os lábios trêmulos, incapacitada de dizer qualquer coisa. E eu ali no chão, lamentando minha covardia. Até que... Em dado instante, me dei conta de que... se estou na Ilha da Fantasia, eu posso! Sou capaz!
! Enxuguei as lágrimas e me levantei. O criminoso assustou-se com a ação repentina e apontou a arma no meu nariz e gritou:
- QUER MORRER?
Olho bem nos olhos deles e respondo:
- Morrer? Todo mundo morre, um dia, meu caro. Mas meu dia ainda não é hoje! - em fração de segundo agarro seu braço; ele tentar apertar o gatilho e não consegue, pois estou pressionando um ponto em seu corpo que anula, que anestesia a mobilidade do dedo indicador. Seu olhar passa do transtornado homicida ao desesperado e atônito que vê todas as suas chances de sucesso naufragarem de uma vez. Os policiais percebem a chance e entram correndo no salão. Agarram o infeliz que, embasbacado com o inesperado, se deixa ser rendido; a arma é finalmente tomada de suas mãos.
Ao ser liberta, Adriana desfalece em meus braços.
Dos criminosos, um é algemado e levado para a delegacia. O outro, embora o ferimento não fosse grave, precisou ser levado de ambulância para ser tratado. E... quanto ao terceiro do bando? Este foi rendido ao sair do banheiro, de onde se negava a sair, mais por estar com disenteria, que por estar recusando-se a rendição.
Despertando aos poucos, Adriana, ainda confusa, assustada, me perguntava se todo aquele pesadelo já havia terminado. Respondi positivamente e ela desabou aos prantos. De alívio.
Capítulo 7
Dias depois... Recebo o telefonema de Adriana, me perguntando se eu estava bem e me convidando para um almoço no domingo, no apartamento deles. Respondo que, apesar do grande susto, estou bem e aceito o convite.
Naquele dia do seqüestro ficamos tão chocados que só pude me despedir desajeitadamente dela, deixando-a com o noivo, que logo que soube do incidente correu pra lá. Tamanha havia sido a preocupação dele, que nem notou a minha presença ali. E ali deixei-os, abraçados e, discretamente, fui embora.
E no apartamento deles...
Ela me recebe com um apertado abraço. Em seguida, me apresenta ao seu noivo. Este também me abraça, afetuosamente. Chego a estranhar tamanha demonstração de carinho, afinal de contas, sou um mero amigo... e depois concluo que deve ser a gratidão por ter salvo sua noiva.
A mesa já estava posta, à minha espera. Sem demora, nos sentamos para almoçar.
Entre garfadas e lembranças, boas risadas. Angelo - eis o nome do noivo da Adriana - se divertia com as recordações dos tempos colegiais que expunhamos ali. Ele não fora de nossa época. Aliás, nem de nossa cidade. Havia se mudado há poucos anos, pra cá. E fiquei sabendo que eles tinham se conhecido em uma feira de livros ocorrida no Rio de janeiro.
- Você é carioca, Angelo? - perguntei. E ele disse que não, que era mineiro.
Notando minha expressão de estranheza, ele se adiantou em esclarecer: "Desde que ela montou a livraria, passou a visitar diversas feiras, exposições de livros. Eu, como sou editor de livros, também costumava... e ainda costumo... estar presente nesses eventos. E calhou de nos conhecermos justamente naquela feira do Rio, não é? - e trocou sorrisos cúmplices com ela - e agora... Vamos brindar!!"
Capítulo 8
Foi na despensa e de lá trouxe uma garrafa de champanhe gelado. A abriu. Serviu todas as taças que estavam na mesa, entregando-as para nós. Esperava que ele fosse se sentar novamente à mesa, mas não; continuou em pé:
- Quero fazer um brinde... ( e fez uma pausa para relembrar mentalmente algum discurso previamente escrito, ou talvez só pra fazer suspense mesmo e ) ...a VOCÊ, Ricardo!
Quase dei um sobressalto na cadeira, de susto:
- Ah! Ah... mas quê isso, não mereço tamanha homenagem não, até entendo que salvei uma vida que... - e Angelo me interrompe:
- Aí é que você se engana, meu amigo; Você não salvou apenas uma vida, mas sim... DUAS!
Fiquei mudo, sem entender nada. "Tinha mais alguém refém ali, naquela hora?", pensei. Não, não tinha. Adriana se antecipou em me explicar:
- Anteontem fui ao médico e confirmei o que eu, ou melhor, nós (olhando para Angelo) esperávamos: Um bebê! "Nosso primeiro herdeiro!", completou sorridente o futuro pai.
Se Adriana fosse morta, a pequena vida que começara a se formar dentro dela, ainda com poucas semanas, também seria inevitavelmente perdida... E brindamos. Não pude conter as lágrimas.
E assim, se passou o domingo.
Epílogo
Alguns meses depois, a boa notícia: O filho - agora não só da minha amiga, mas dos meus amigos - chegava ao mundo; forte, saudável, cheio de vitalidade! E o mais agradável ainda: Eu havia sido escolhido por unanimidade para ser o padrinho de batismo dele.
Na data marcada, lá estava eu, na igreja. Em meus braços, o pequeno Ricardo me olhava, algo assustado. E assim, abençoei meu pequeno xarazinho.
Ah! Uma história sem romances, como eu queria. Imprevista foi a entrada da Adriana no meio do enredo, mas foi bom. Infelizmente não pude viver a parte profissional, pois me faltaria embasamento técnico. Bem, enfim, este é o ...
F I M
( Trilha sonora: What a Wonderful World - Louis Armstrong )
2 comentários:
UAU!
Ao embalo dessa canção, então... Devem ser ótimos amogos... boas surpresas da vida
Ana
Notas explicativas:
• Wendell e Aline são membros da Ilha, seus comentários equivalem aos imprevistos da vida, já que os nossos planejamentos estão mesmo sujeitos a variação da maré.
• Os capÃtulos são curtos porque foram originalmente criados para o formato orkutiano, que limita o espaço máximo de cada post em 2048 caracteres. (Em tempo: Detesto aquela maldita limitação de caracteres)
: )
Postar um comentário