Vez ou outra assisto ao programa do irritante João Kleber. Mais precisamente a aquele quadro do teste de fidelidade. É de baixo nível, é de mau gosto, já houve denúncia de que tudo aquilo não passa de uma armação, uma encenação; mas mesmo assim assisto. Pra variar um pouco.
E penso em como seria se minha namorada resolvesse aprontar uma daquelas comigo...
A cilada costumeira é a oferta de um emprego ou serviço, pelo que tenho notado. Como não estou à procura de emprego nem saio às ruas oferecendo meus préstimos, o tal teste se daria envolvendo meu trabalho diário mesmo. E como seria?
A produção do programa escalaria uma morena de seios naturalmente volumosos, a insinuá-los em um decote nem tão exibido, nem tão discreto, para interpretar a "isca". Sei disso porque tenho certeza de que minha namorada iria fornecer informações sobre meus gostos, para a equipe. Pra que a atriz ficasse irresistível e eu caísse como um patinho.
Qual a forma de abordagem? Vejamos... Forjam um defeito elétrico qualquer no carro da 'isca' e, desta forma, ela surge na minha oficina. Atendo-a, ouço a breve descrição do problema que ela me faz e em seguida começo a examinar o carro. Durante os testes de rotina que vou fazendo, ela puxa conversa. Diz não entender nada de carros, ter pavor de tomar choque. Concordo com ela, respondo que mesmo entendendo alguma coisa de carros, também tenho medo de tomar choques. Ela ri. Não em tom de zombaria, mas de um jeito leve, descontraído: "Ah! Nãoo acredito" e ri. É simpática - penso - e tem um corpo bonito, atraente. Mas... ciente da ética profissional, evito olhá-la pescoço abaixo. Ademais, a esmagadora maioria das mulheres que vão a uma oficina automotiva já é comprometida, quer seja com namorado, ou noivo, ou marido. E definitivamente, a idéia de provocar ciúme neles não me atrai nem um pouco.
Reparo agora que ela não ostenta nenhuma aliança, em nenhuma das mãos. Provável que seja irmã, prima ou, sei lá, talvez a filha de um cliente antigo e, vinda através de indicação, explique-se o porquê de ela estar tão à vontade.
Ela pergunta se o som do CD estaria atrapalhando. É jazz (outra indicação da minha namorada para a armação); lhe respondo que não, pois gosto do estilo musical. Agora viria o clássico - "Quer conhecer minha coleção do Louis Armstrong lá no meu apartamento?" ? Claro que não. Trocando CD's por vinis, essa é mais velha que a invenção da bicicleta. Apenas sorriríamos pela coincidência de gosto musical e eu continuaria trabalhando.
Em poucos minutos o defeito no veículo já está sanado. Coisa relativamente simples, o custo da mão-de-obra é baixo. Ao ouvir o preço que lhe passo, ela se surpreende:
- Nossa, mas só isso mesmo? E respondo que sim, explicando que o problema estava em um aparente reparo mal feito. Ela arremata:
- Bem que eu desconfiei daquela outra oficina em que eu tinha ido; queriam me empurrar um monte de peças! Que bom que agora tenho em quem confiar.
Educadamente agradeço o voto de confiança. Ela paga o serviço e, ao receber a nota, pede também um cartão-de-visita. "Pra alguma eventualidade", diz. E se vai.
Dias depois, a "eventualidade" acontece: Ela liga pra oficina, toda esbaforida, afirmando que não está conseguindo fazer o carro pegar. Pergunta se posso ir socorrê-la. Para a sorte da produção do programa - e a continuidade desta historinha - justamente naquele momento estou disponível e respondo positivamente. Endereço dela anotado, lá vou.
É uma casinha média, numa rua tranqüila. Mas... onde está o carro? Toco a campainha e logo ela surge à porta: "Puxa, ainda bem que você veio rápido!". Pergunto pelo carro e ela me guia casa adentro "Ele está na garagem, que fica nos fundos" e chego no local: Um recinto todo fechado, exceto por duas ou três janelinhas estreitas que ficam quase no topo das paredes, e que só servem pra circular o ar; suas dimensões mal deixam a claridade da rua entrar.
Sem demora entro no carro pra ver o que está acontecendo. Giro a chave e nada, nenhum sinal de movimento. Me deito sob o painel pra tentar localizar um possível fio escapado ou com mau contato. Com o calor abafado da garagem, começo a suar. Notando meu suadouro, ela pergunta se eu aceitaria uma limonada; oferta que aceito. Ela sai pra ir preparar o suco.
Na volta, ao me entregar o copo ela se desequilibraria e derramaria todo o líquido em minha roupa? Hahahahaaaa! Lógico que não. Esta também é velha. Daí ela diria "Ai, me desculpa! Mas como sou desastrada, deixe-me enxugá-lo". E na afobação de me secar logo, encostaria os seios em mim. Ou ficaria numa posição em que o decote dela ficasse na frente do meu nariz. Ou diria "Melhor vc tirar a roupa, senão o açúcar da limonada vai te deixar todo grudento?" ( sonora gargalhada ) Nada mais típico para o enredo de um daqueles filminhos pornográficos!
Não. Não seria tão vulgar assim.
Minutos depois, lá vem ela, trazendo uma jarra com a limonada gelada e um copo, tudo sobre uma bandeja: "Vou deixar aqui em cima da mesinha, assim que puder..." Ainda deitado sob o painel, vejo de soslaio a direção que ela me indica e agradeço. Em seguida ela pede licença pra fazer uma ligação telefônica e sai.
Nesse intervalo resolvo fazer a pausa para beber. Enquanto estou no segundo copo, ela reaparece, agora com uma expressão mais aliviada: "Eu tinha um compromisso agora de tarde, mas consegui adiá-lo. Parece que o problema desta vez está mais complicado, não?" Concordo com ela, digo que ainda não achei nenhuma pista do que pode estar acontecendo. Enquanto bebo, começo a pensar... 'Mas se ela tinha algo agendado, devia ter ligado para o local do compromisso antes, não? Ah... se bem que antes não dava pra ela saber se ia ser demorado ou não... hum. E reparo que ela trocou de roupa.
Da calça comprida passou para a bermuda. Não chega a ser aquele tipo de peça que é pouco maior que a calcinha, mas tambám não deixa de destacar o belo par de pernas. Acompanhando a bermuda, uma camiseta que não deixa transparecer a marca do sutiã. Ou...
Uepa! Ela está sem sutiã por baixo?!
Ei, está!! Mas isso é covardia! Eu protesto!! - pensei.
Ela percebe o meu olhar e sorri. Com o mesmo sorriso malicioso da serpente ao oferecer a maçã para Eva. Mas nada diz, para não parecer vulgar. Um deslize nesta hora e a "presa" escapa, ela deve estar pensando. Engulo minha surpresa junto com o último gole de limonada, a agradeço e volto ao carro.
Última olhada sob o painel, não há nada de errado ali, é a vez de examinar o motor.
Abro o capô.
- E aquele fio solto ali, não tem nada a ver? - Ela pergunta, aproximando-se por trás de mim, a apontar o tal fio e se encostando ligeiramente em mim. ( Uau, desta vez deu pra sentir o calor dos... a-ham! ) - Este? - Verifico-o. Nada a ver. E começo a suar mais ainda. Ela ri discretamente e pergunta:
- Você é bem tímido, não?
- É. E como sou. ( enxugando o suor )
- É casado?
- Não, mas estou namorando.
. . .
( breve silêncio quebrado por ela ) :
- E não vai me perguntar se sou casada?
Reluto um pouco em entrar no jogo dela, antevendo seus próximos passos, mas acabo cedendo, mais por não saber o que dizer na hora que por qualquer outra intenção e faço a pergunta.
- Estou solteira, também. Estava namorando, mas terminei com ele há... uns cinco meses, já. E seu namoro, como está? Vocês se encontram todos os dias?
- Pois é, na verdade ela não mora por aqui. Aliás, mora bem longe daqui. Infelizmente. - Ela se surpreende com minha resposta:
- Nossa! Mas então, como é que vocês fazem pra... bem... pra namorar?
- Nos encontramos quando dá, e isso geralmente é uma vez por ano...
- Puxa, mas isso é que é força de vontade, hein? E não se sente carente, não?
- É... sinto falta sim, né? Mas... eu aguento, eu aguento.
- Estou impressionada com sua capacidade! Se fosse eu, não aguentaria!
E rimos.
Ela diz:
- Você tem um sorriso bonito... e, agora que estou reparando... lábios também... - olhando fixamente para minha boca.
- Ah! Ainda não olhei a parte de baixo do carro, talvez o problema esteja lá! - Desconversando rapidamente e me deitando sob o motor. Ela não entrega os pontos; agora é questão de honra pra ela: Se ela falhar, ou é uma atriz incompetente, ou uma mulher desinteressante. Ela se abaixa onde estou e, roçando sua perna na minha, pergunta se poderia me ajudar em algo. Agradeço a ajuda, mas não há nada que ela possa fazer. Aaah, maldito defeito... onde você está? Começo a perder a paciência. Nesse momento, toca o meu celular. Saio de baixo do carro pra atender.
- Alô? É... (...) Não, não; é que deu um problema aqui... (...) Isso. (...) Não... só amanhã... é. (...) Tá certo. - e desligo.
- Era sua namorada? - ela me pergunta, demonstrando interesse.
- Não, era da oficina; estavam estranhando a demora. Fazer o que, nãoo? Eu nem imaginava que isto fosse me dar tanto trabalho... - respondo, não conseguindo esconder o cansaço. - Não haveria algum carro que você pudesse pegar emprestado de alguém? Dos pais, irmãos, sei lá... algum parente ou mesmo amigo? - pergunto, na esperança de conseguir mais tempo para o conserto, pois assim poderia voltar em outra hora, com um ajudante. Ou com o guincho. Mas ela...
- Hmm, infelizmente não tenho, fiquei dependendo completamente desse carro...
Paro desconsolado à frente do carro. Tento um diálogo telepático com ele. Eu sei, eu sei, o carro é um objeto inerte, não responde, não lamenta, não ofende. Mas este é o lado fabuloso (referindo-me a contos de fadas, mesmo) de um eletricista. Ela apenas me observa, compartilhando o silêncio contemplativo. Certamente está delineando mentalmente seus próximos passos. Em parte, seu profissionalismo cênico cede espaço para o lado emotivo: Ela começa a sentir pena do sofrimento de sua "vítima"...
Mas logo volta à razão; estão sendo filmados. Ela pensa no contrato de trabalho que assinou e relembra sua confiança, sua convicção de levar este teste até as últimas conseqüências, as futuras chances profissionais que ela fatalmente iria perder se falhasse... Não, ela não desistiria. Pelo menos, não tão facilmente. Aproxima-se por trás de mim e começa a massagear meus ombros:
- Você está tenso. Posso te fazer uma massagem? Talvez ajude...
- Bem, já está fazendo, não? - respondo, sem dar muita importância a ela. Estou compenetrado, vasculhando meus arquivos mentais em busca de uma pista que me ajude a resolver o maldito problema deste carro. As mãos dela já ameaçavam descer pra minha cintura quando me lembrei: Ainda havia um ponto que eu não havia examinado! Fiquei tão esperançoso de finalmente solucionar o problema que entrei no carro na hora, e larguei a garota ali, sem nada dizer. Abri certo compartimento, retirei uma peça vital do carro, examinei-a minuciosamente. Fiquei pasmo: A peça estava simplesmente... OCA! Improvisei a ligação direta para substituir aquela peça e o carro finalmente pegou.
Nessa hora ela entra no carro e senta-se ao meu lado, no banco do passageiro, com um sorriso levemente maroto...
E eu, indisfarçavelmente inconformado com a descoberta:
- Me diga, o que é isto? - segurando e mostrando a ela a peça adulterada - Isto aqui foi mexido! Desmiolaram esta peça propositalmente!! E por quê? Para que finalidade ??
- Sabe... - e ela fica cabisbaixa - esse problema apareceu ontem... mas foi de noite. E eu não poderia chamá-lo aqui fora do horário comercial, não é? Fui pedir ajuda a um dos meus vizinhos, ele veio aqui... e mexeu, mexeu e não resolveu nada. Parece até que piorou mais ainda a situação, não?
- Piorar?! Ele simplesmente destruiu um componente do carro!
Ela mordisca o lábio inferior e afirma, em tom de desabafo:
- Eu não devia ter deixado o meu vizinho mexer aqui, não devia! Ele estragou todo o meu carro!! - e seus olhos umedecem. ( boa atriz, esta ) Minha revolta transforma-se imediatamente em dó:
- Ei, não precisa ficar assim, ele não estragou todo o carro, não. Olha, é só esta pecinha aqui que...
Mas não adianta. Sem conter os soluços, as lágrimas dela escorrem. Fico desesperado vendo-a chorando. Tento explicar que a situação não é grave, que o conserto é simples, que a culpa é minha por não ter descoberto logo o defeito, peço desculpas por ter me irritado. Em meio aos soluços, ela só consegue me dizer que "... a culpa não foi sua..."
Ponho minha mão no ombro dela e peço que se acalme...
Ela responde que "ainda bem que você é uma boa pessoa... muito boa" e termina por me abraçar.
Sob esta circunstância, sou incapaz de repelir o abraço que ela me dá. Seria, antes de mais nada, uma falta de educação de minha parte, se eu o fizesse. E permanecemos abraçados em silêncio por alguns minutos, até que ela parasse de chorar.
Os olhos dela já estão secos, de volta a normalidade. O calor do abraço, do contato com aquele corpo acaba me causando certo "efeito colateral". Ela sorri, a danada. E me pergunta se estou excitado. ( Como se não estivesse perceptível, bah! ) Sei que ela notou o volume que não se encontrava ali entre nós até ainda há pouco. Desvencilho-me de seus braços meio que à força, digo-lhe que preciso terminar logo o reparo do carro e entro dentro dele, a fim de deixar feita uma ligação direta para que o carro possa funcionar.
Em poucos minutos o reparo está pronto. Oriento-a para levar o carro até a oficina, onde poderei desfazer o "quebra-galho" e repor a peça que havia sido quebrada. Aparentemente sem prestar atenção em nada do que eu havia dito, ela persiste na frase anterior, só que agora com a expressão de coitada:
- Você ainda está excitado, não está... ? - e complementa - ... eu estou!
Tento desconversar:
- Olha, eu sinto muito, mas já estou um bocado atrasado, preciso ir...
E ela:
- Você não vai me deixar neste estado, vai? Vem, não tem ninguém em casa, vai ser rapidinho...
- Não, eu preciso ir mesmo.
Agora, mais manhosa ainda:
- Vem... você cuida tão bem do meu carro, tenho certeza de que sabe cuidar bem de mim, também... Vem preencher meu vazio, vem... - e levanta sua camiseta até o limite que precede a exposição total dos seios.
Nota do Editor: Cabe esclarecer aos leitores que a produção do programa proíbe a nudez parcial ou total. (...) Pelo menos, nesta minha versão, sim!
Uma parte inferior dos mesmos começa a aparecer e ela então dá sua cartada final:
- Vamos? - acompanhada de uma piscadela.
Definitivamente desisto de tentar dialogar com ela, pego minha caixa de ferramentas e me dirijo a saída. Ela não pôde fazer mais nada. Se o fizesse, este programa só seria liberado para ir ao ar após as 3 horas da madrugada. E eu não poderia ser acusado de nada, senão de ter sido... violentado!
: O
Um comentário:
Que imaginação, hein? Texto saboroso, Ricardo. Mas, cá entre nós: você resistiria mesmo? rs.
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