10.4.05

Reminiscências de piqueniques

Palavra tão rara hoje em dia, não? O Piquenique remete a um passado longí­nqüo...


Talvez nem tão longí­nqüo assim, mas sendo que estou a meio caminho de entrar na casa dos 'enta' e essa é uma lembrança dos meus dez e poucos anos... ah, é sim.

Sempre anunciado com a devida antecedência, esse era um evento que me deixava eufóricos. Já prevendo a presença de todas, ou quase todas, as guloseimas que não freqüentavam a mesa no dia-a-dia e, só por conta disso, a festa já estava garantida.

Eram outros tempos, realmente.
Nossa preocupação era com a chuva, ou com as formigas. Ou até mesmo com algum vento mais forte... tão diferente de hoje, em que ficamos preocupados com o preço do pedágio e o seqüestro-relâmpago.
Era relativamente fácil encontrar um local aprazí­vel, longe da poluição, do trânsito, do estacionamento pago e dos conseqüentes "flanelinhas".

Embarcávamos todo o material necessário e lá í­amos nós, estrada afora. Nós e uma valente variant 76, que carregava sem nenhum esmorecimento a famí­lia de 4 pessoas, ou às vezes mais, quando iam os primos junto, e toda a tralha do piquenique: Toalha, garrafa térmica, os potes com a comida e outros apetrechos que nem me lembro mais quais eram. Quem sabe varas de pesca, se o local fosse a margem de um riacho?

Quase sempre era uma empreitada bem sucedida. Só não era quando chovia.
Às vezes a chuva até nos permitia que ao menos terminassemos o lanche sobre a grama, mas não perdoava a estrada, na volta. E como essa estrada geralmente era de terra, imaginem...

Sim. Ladeira vai, ladeira vem, chega uma hora em que os pneus patinam sobre o lodo. Sem outra alternativa, lá vão os passageiros pra baixo da chuva, a fazer força.
Empurra, empurra, escorrega, empurra... até que... vai! E vai barro pra cima de todo mundo, também!
Pra criançada, aquilo também fazia parte da festa. Ruim era a tremedeira de frio, depois.

E ainda hoje...
A variant continua a mesma. Já as crianças cresceram. E o entusiasmo para encarar novas aventuras assim, deve ter se perdido com o tempo.

Infelizmente... ou talvez não, muitas coisas perderam essa naturalidade. Os "McDonald's" da vida sempre existiram durante minha infância, é verdade, mas não eram tão populares quanto o são agora. Hoje em dia é possível encontrar de tudo pré-fabricado, até mesmo um "Bolo da vovó" industrializado, com a pretensão de parecer caseiro e, inclusive, ter aquele mesmo gostinho do bolo que sua avó preparava, bah!

Piquenique com pescaria? Inventaram o pesqueiro. Agora você estaciona em um local que não atola, pode se sentar em cadeiras à margem de um lago artificial e até mesmo pedir uma cerveja acompanhada de uma porção de fritas, enquanto observa a bóia afundar.
É confortável? Claro que é. Mas de vez em quando ainda sinto saudades dos barrancos que desmoronavam e eu ia de bunda, na água.


Fico até imaginando como serão os pesqueiros num futuro, sabe lá... próximo?

Cada pescador tem direito a uma cabine envidraçada, com uma mesa, cadeira reclinável, ar-condicionado e uma vara de pescar com controle remoto. O pescador não precisa nem se dar ao trabalho de trocar as iscas, elas já são repostas automaticamente pelo molinete. Aliás, ele nem precisa mais segurar a vara, basta monitorar o fundo do lago através do sonar que aparece no display do controle remoto e escolher qual peixe deseja fisgar. A vara faz o resto. E sozinha.

O pescador boceja, entre um gole de cerveja e outro, e resolve interfonar pra recepção:

- Alô, aqui é do 103. Podem me mandar uma porção de muriçocas?
- Sinto muito, senhor; mas a muriçoca está em falta.
- Mas que coisa. E pernilongo, tem?
- Sinto informá-lo, mas acabou na semana passada e a entrega da nova remessa está atrasada...
- Mas que espelunca! Aqui não tem nada que preste? Me chame o gerente! Quero falar com ele!!
- Calma, senhor, não precisa se exaltar. Podemos lhe oferecer a troca da atual cabine em uso por outra, com grama sintética aromatizada e sons da antiga floresta amazônica no som ambiente...
- Humm... sem nenhum custo adicional?
- Excepcionalmente, sim.
- Tsc. Que seja, então. Mas vê se arranja um inseto aí­ pra me distrair, que isto aqui está tranqüilo demais, chega a me irritar!
- Aceitaria uma barata, senhor?

2 comentários:

Anônimo disse...

Criatividade é mesmo um de seus fortes :)
E eu adoro isso =D

Abç Ricardo!

R. disse...

Pois é, e um dos meus temores... o futuro. Até que ponto chegaremos, nessa busca insâna do conforto e mais conforto. A comodidade que chegará a deturpar a natureza das coisas... (: p