9.6.07

Por que vale a pena

Na madrugada passada senti novamente o peso da responsabilidade de administrar e acompanhar uma comunidade orkutiana – a qual passei a chamar carinhosamente de "creche" por motivos mais que evidentes. Um rapaz, como tantos outros, aparentando uns 15 anos de idade, expôs seu drama: Depois de anos de um namoro estável, ela decide pôr um fim no relacionamento e, pouco tempo depois, esta já encontrava-se nos braços de outro. Um caso bem comum, concordo. Mas...

Além do inconformismo esperado, ele apresentava-se transtornado, mostrando-se convicto a acabar com a própria vida. Sei bem que, ante a situação desesperadora, muitos também declaram tal desejo tresloucado, mas acredito que possuo a sensibilidade para perceber quando isso é um desabafo dito impensadamente, num impulso sem grandes conseqüências além do verbo, e quando a afirmação vem de alguém que realmente é capaz de fazer isso. E pelas palavras desse moço, senti que ele enquadrava-se no segundo caso.

Primeiramente pedi-lhe que parasse de pensar na morte, pois esta não solucionaria nada. E então passei a aconselhá-lo a focar a vida em outras áreas, que não a sentimental. Esclarecendo que isso também não resolveria o problema, mas dessa maneira o cérebro – tão sufocado ante a obssessão pela amada – poderia oxigenar-se um pouco, trazendo assim, quem sabe, a visão de novos horizontes, ao lado dela... ou não.

Qual não foi minha surpresa ao receber a resposta dele; extremamente racional e lúcido, rebateu com precisão cada um dos meus argumentos de uma vida promissora à frente. Não como os desesperados que geralmente mal ouvem/lêem o que lhes é dirigido, só manifestando as coisas que latejam em suas mentes, este rapaz não desviou-se do rumo que eu estava propondo à conversa e demonstrou plena confiança em suas conclusões do fim (do romance e da vida) e, com firmeza, acatou meus conselhos mas provando que não surtiriam nenhum efeito benéfico.

Fiquei em xeque: Não estava conseguindo demovê-lo da triste intenção, mas também não podia entregar os pontos. Não por uma vida humana. Clamei pelo auxílio divino e prossegui com o diálogo, que se estendeu por mais duas, quase três horas madrugada adentro. Cheguei a contar-lhe um episódio de minha vida que em muito assemelhava-se com a realidade que ele estava vivendo. Expliquei que só pude ser capaz de compreender certas coisas anos depois, e que, se tivesse me matado naquela época, não teria me transformado no mártir por uma causa nobre, mas sim o covarde por uma razão praticamente fútil. Que eu teria perdido uma única pessoa, mas muitas teriam me perdido, e por culpa de um egoísmo tolo.

Enfim, depois de muita conversa, consegui trazê-lo de volta à razão. Reconheceu que o suicídio seria mesmo uma covardia e dispôs-se a continuar vivendo. Nessa hora minha emoção era tamanha, que minhas mãos tremiam. Agradeci a Deus, aos anjos. Finalizando o tópico, ele agradeceu-me pela ajuda e eu reafirmei minha disposição de jamais deixar alguém cometer o ato inconseqüente de tirar a própria vida e que poderia contar sempre com os amigos, pois eles estão por toda a parte; às vezes, onde menos se espera.

Já prestes a desconectar-me da internet, recebo um scrap dele. Havia elaborado um plano de metas, onde, dentre outros itens, estava a vontade de perdoar algumas pessoas e a disposição de levantar a cabeça e continuar a vida. E me agradecendo novamente, de coração e eternamente.



Olha, são coisas assim que me dão o maior gosto em estar no Orkut. De ter a certeza de que, não obstante tamanho "oceano poluído" de inutilidades predominante, ainda existe – e sempre existirá – a pequena nascente, o acanhado riacho de águas cristalinas...

3 comentários:

R. disse...

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Anônimo disse...

Ai. Meus olhos encheram-se de lágrimas ao ler esse post. Amei.

Anônimo disse...

Meu amigo querido!:)

Você tem mais talento do que eu ao lidar com o orkut. Fui expulsa de uma comunidade da qual era membro desde 2004 por discordar da moderação, que atua de maneira totalitária. Apesar de muitos levantarem a voz a meu favor, o intransigente continuou chamando de nariz de porco a tomada.Surreal. tsc