Não há autenticidade. As relações sociais baseiam-se em modelos que, em muitos casos, são orientados pela correlação de necessidades. Ou interesses, por assim dizer.
Já começa assim no meio familiar. Mas dessa parte cultural passarei direto, não é mais o que me apetece. Ou não é o que tanto me incomoda, no momento. A cruz da vez é a vida profissional, a que me induziu a um processo* de amnésia diária. Ou tentativa desta.
Vivemos de aparências. De conceitos pré-definidos que excluem excrúpulos. A imagem é tudo; o 'parecer impecável', o 'ser tudo o que o consumidor gostaria que fossemos' dita todas as ordens. A qualquer custo. Lícito ou não.
Eu que sempre prezei a honestidade comercial me vejo sob ordens superiores a ocultar os "podres do sistema". Somos silenciados em nome de uma irretocável imagem que se quer impor aos clientes. "O cliente não precisa saber..."
O meu cliente – dos tempos em que eu trabalhava em São Paulo – precisava saber, sim. E o sabia, com todas as letras; eu jamais escondi procedimentos e/ou procedências do que eu estava ali, propondo ao interessado. Sempre tive essa transparência.
Mas agora, em nome único e exclusivo de contas – as que todo cidadão de bem tem com que arcar; despesas domésticas, custo de sobrevivência – me dobro ao "sistema": Me calo. Lubridio o consumidor. Com tamanho desgosto que não me cabe. Os desonestos que lá trabalham prosseguem em toque de caixa, faturando e cantarolando alegremente sem nenhuma preocupação, pois estão acobertados pela conivência – ou cumplicidade, talvez seria o mais apropriado? – dos superiores.
Parece que a cada dia que passa me transformo mais num fantoche: Não posso dizer o que acho, não posso relatar o que vejo de errado – de que jeito, se a recomendação do erro vem "de cima"? – e não posso sequer alertar o cliente da arapuca em que está prestes a cair. Faço o que dita a regra comercial: Finjo que tudo é uma perfeição, que tudo realmente é o que deveria ser. Sob pena de eu ir parar no olho da rua se insinuar que não é.
O mundo é dos desonestos. Dos que têm a ladainha mais convincente.
Já os que têm algum caráter, estes são dispensáveis à empresa. Afinal, caráter nunca deu lucro a ninguém...
* 8 meses desempregado me ensinaram – a duras penas – que emprego não é coisa fácil de se conseguir aqui. Aliás, em lugar nenhum, ainda mais com o currículo pífio que tenho. E por isso tento, enquanto não avisto nenhuma outra "luz no fim do túnel", manter-me no que tenho.
E um dos métodos que criei para não ter um piripaque de tanto inconformismo e stress desse dia-a-dia é justamente o esquecer diário. Me esforço em parar de pensar naquilo que tanto me incomodou. Recorro a métodos não muito ortodoxos e adormeço ao final de cada dia. Esqueço, esqueço, ESQUEÇO. Deveria, católico tal qual sou, perdoar, mas não creio que aquilo seja "perdoável". É mesmo digno de esquecimento. Em nome de dívidas que não quero deixar vencerem.
4 comentários:
Puxa, Ricardo, que coisa triste. Imagino o quanto você deve ter sofrido até chegar nesse "esquecimento". Pra outros, seria o mais natural. Pra você, é abrir mão de algo importante, uma qualidade que você sempre teve como profissional e pessoa.
Espero que um dia (esperar não custa, né?) você não seja obrigado a isso pra sobreviver.
Você também é portador do Grilo Falante. Bem vindo ao clube, meu amigo.
Ai, que chato... =/
Oi, Ricardo, queria te escrever um email, mas não encontrei um endereço. Eu e meu marido somos de Sao Paulo e estamos querendo nos mudar para uma cidade no nordeste. Vi que você é paulistano e não está satisfeito aí. Nao vale a pena, entao?
Vamos conversar mais, meu email é carolinasanchezmiranda@gmail.com
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