Amanheceu mais um dia chamado "útil", chuvoso. Eu, sem guarda-chuva nem outra alternativa, fui caminhando para pegar minha condução sob a água mesmo. A princípio, como qualquer mortal, lamentei.
Conforme ia caminhando, meus pensamentos bailavam sobre o tema, sobre a situação. Primeiro pensei na grande vantagem que haveria em chorar, aproveitando, além das gotas da chuva se misturando às lágrimas, meus óculos completamente impregnados de água, ocultando da curiosidade alheia os olhos marejados...
Tentei cantarolar mentalmente uma canção do Kid Abelha que justamente fazia menção a lágrimas e chuva, mas aquilo não me empolgou. E voltou-se meu pensamento a outro lado: O católico.
Ou, pra ser mais específico, o renovador carismático e seu emblema-mór: Padre Marcelo. Aquele mesmo do "Ergueeei... as mãos..." e seus baldes d'água benta no povo. Então olhei ao alto e imaginei a reprodução da mesma benção, só que em proporção divina. E sorri. Enfim entendi – ou concluí por conta própria – que aquele aguaceiro todo que me encharcava nada mais era que um benzimento de Deus.
Cheguei ao ponto (parada, para os pernambucanos) de ônibus acompanhado da chuva matinal. Roupas totalmente molhadas, vez ou outra, enquanto aguardava a chegada do coletivo, mirava o céu nublado e sorria. Uma cena que ninguém deve ter entendido, certamente. Ou deve ter imaginado-me como apenas mais um enlouquecido pela vida selvagem da cidade de pedra...
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À noite, hora de voltar pra casa. Durante o dia eu trabalhara com um uniforme sequinho e por isso não havia ficado com nenhum resquício do "banho" da manhã, mas... e quanto às roupas? Pois é, guardadas num armário nem puderam secar; ainda estavam úmidas. Como não havia outra opção, vesti-as assim mesmo e segui meu caminho.
Dentro do ônibus é que comecei a pensar no cheiro. Sim, porque roupas molhadas da chuva raramente ficam com um odor agradável. E passei a ter a incômoda impressão de que alguns mais próximos de mim olhavam-me com certo desagrado.
Discretamente cheirei-me e, sinceramente, não senti tanta ojeriza assim.
Mas sabe quanto você coloca em sua cabeça que todos ali estão te notando e reprovando? De repente é só mera coincidência, mas acaba preocupando. A mim pelo menos preocupa. E comecei a me sentir o mais desprezível dos seres.
Tive até vontade de, numa tresloucada atitude para salvar minha reputação, declarar para todos os presentes, em alto e bom som, que eu estava com aquele cheiro porque estava sem guarda-chuva, havia tomado chuva de manhã e estava sem roupas secas para vestir depois. Mas até parece que um cara acanhado como eu seria capaz disso.
Enfim, passei a viagem toda em pé, encolhido de vergonha, e pensando que preciso comprar logo um guarda-chuva...
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Um comentário:
Esse post tem uma mesma conclusão, embora elas aconteçam de maneiras opostas na primeira e na segunda parte: a nossa maneira de encarar as situações altera a nossa realidade.
Beijo!
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