14.1.08

Post bipolar...

... mas com extremos diferentes.


(Trilha sonora: Óperas)

Se eu morresse amanhã. Ah, se eu morresse.
Não sentiria pesar em deixar esta terra. Não esta Terra, mas sim esta terra.
Não desmerecerei o mérito de todos os que até hoje vieram – e ainda vêm – ofertando-me simpática e receptivamente o conforto da sincera amizade para que eu pudesse – e possa – sentir-me em casa, mas por maior, intenso e carinhoso que seja este empenho, esta sensação não me nasce aqui dentro do peito. Ao contrário, vive aqui um coração que bate resignado, conformado com o caminho escolhido. Um certo caminho e caminho certo. Mas não isento da saudade da terra natal.

Terra tal qual outra qualquer, que assim como esta na qual hoje estou, também já me deixou solitário como uma gota de água em pleno mar – já ouviu falar da expressão "solitário no meio da multidão"? – mas que sempre voltava-me os olhos da compaixão e trazia o consolo, algum consolo. Éramos conhecidos, enfim. São Paulo por vezes foi-me uma babá desleixada, abandonando-me à minha própria sorte – que por vezes não era sorte, era o mais autêntico azar mesmo – mas sempre retornava. Vigilante, por vezes tardia, mas sempre atenta aos meus prantos. Cidade que me criou, cidade na qual me criei.
Cidade cruel, cidade apaixonante. Cidade natal. E de meus natais, de meus pais.

Pai, Mãe, amo-os eternamente! Ou enquanto minha sã consciência mantiver em minha lembrança o fato de que de vocês sou a criação. Amigos que lá fiz, sei que a maioria de vocês jamais lerá estas chorosas linhas, mas saibam que são únicos. Inimitáveis. Lugares, famosos ou não, a São Paulo pertencem. E de lá dignos são. A alegria e a tristeza paulistana somente de lá podem ser. Assim como um ardoroso paulistano, onde quer que esteja, àquele lugar estará intrinsecamente ligado, quer queira, quer não.
E eu quero.



(Trilha sonora: Rock internacional, década de 70 e 80)

E amanheço a segunda-feira disposto a começar bem a semana na empresa. Bem-humorado,
conversando sobre amenidades com os que tenho pouca intimidade e sobre bobagens mais
descontraídas com os mais íntimos. Mas a alegria do pobre dura pouco, já nos ensinava o milenar
(milenar?? Ou é centenário? Secular? Ah, sei lá!) ditado e, como todo ditado que se preze, logo provou-se a força de sua verdade ainda antes – muito antes, aliás, era umas 10 da manhã – do almoço: Um serviço que eu havia realizado na semana passada havia retornado. E com conseqüências nada agradáveis decorrentes de um deslize (esquecimento) que eu havia cometido. Poupo-os, assim como poupo-me dos detalhes – agora quero é esquecer mesmo!! – e só digo que a partir daí o dia se seguiu no mesmo ritmo; ou com notícias ruins, ou com fatos ruins tendo-me, ora como coadjuvante, ora como ator principal.

Foi, enfim, uma merda de dia. Quase que a síntese da semana passada em um único dia. Mas não vou praguejar sobre o tão ansiado e batalhado emprego, não; se foi batalhado, hei de continuar sendo o soldado na trincheira a vencer, principalmente, meus próprios limites e minha falta de paciência com tudo e todos.

Mas que no final do expediente, já sem a presença de nenhum cliente por perto não resisti... ah! Não mesmo! Questionado pelo chefe sobre um serviço o qual eu deveria ter dado início mas não pude devido a circunstâncias alheias à minha boa vontade, expliquei o porque e arrematei: "Quer saber? FODA-SE!!"

Lógico que não havia mandado meu chefe se f**** e sim aquele serviço e por isso ele arregalou-se. Outro colega que estava por perto ouviu meu inesperado desabafo e caiu na maior gargalhada. Acho que ele nunca havia me visto/ouvido falar palavrão antes. Mas e daí? Sou humano, não sou? Chego às tampas de "engolir sapos", não chego? Pois bem, dei-me à liberdade de ser o mais humano possível no final de um estressante expediente. E não me arrependi, pois o tresloucado manifesto já havia por mim sido calculado: O serviço estava inevitavelmente adiado para amanhã e eu já sabia de antemão.

Concluindo: O chefe compreendeu meu estado de exaltação e deu-me trégüa. Meu colega foi caminhando e rindo. O carro ficou mesmo para amanhã. E eu fiquei convicto de que às vezes é mesmo preciso "ligar o 'Foda-se!'" para ser feliz, como dizem alguns. Ou para, ao menos, sobreviver.

3 comentários:

Unknown disse...

(totalmente bipolar!)

Sobre o 1º post: eu tenho receio de sentir o mesmo fora de Curitiba. Por algumas razões, às vezes acho que vou acabar saindo daqui. Mas eu sei que as cidades nos marcam de maneiras inesperadas; será que sou muito mais curitibana (o que nem é verdade) do que penso? Espero que não.

Sobre o 2º post: Issae! Você deve ser bem contido mesmo, hein?

R. disse...

Cidades nos surpreendem, Cami. Pouco posso dizer sobre a capital paranaense por pouco conhecê-la, mas não descarto a possibilidade de que um dia vc, morando em outra cidade, venha a sentir-se saudosa de seu antigo lar.
A propósito, vc é natural de onde? : )


E seu comentário sobre a 2ª parte do post surpreendeu-me: Pareceu ser palavras de alguém que recorre ao "Foda-se" com assiduidade! É seu caso? (Em tempo: Sempre imaginei-te uma pessoa sem palavras de baixo calão em seu cotidiano)

Mas isso não é uma crítica, tampouco um elogio. É a constatação da normalidade mesmo; ninguém consegue (sobre)viver nesta sociedade sendo políticamentre correto em tempo integral, né?
(: p

Anônimo disse...

Oi Ric!

Na verdade, eu sou paulistana. Vivo em Curitiba desde os 6 anos, mas as pessoas sempre dizem - você não é daqui, né? Tenho um sotaque e um jeito de ser que saltam aos olhos (dos curitibanos) que não sou curitibana. Uma dessas coisas é por ser simpática com estranhos...

Quanto ao foda-se, é e não é. Pros padrões curitibanos, eu sou uma pessoa que fala muitos palavrões (pros paulistas eu falo a quantidade normal e pros cariocas eu falo pouco). É porque eu digo coisas como " é foda", "que merda", etc. Eu raramente ligo o foda-se. O meu foda-se é mais de me afastar. Não brigo, não discuto - eu deixo as coisas de lado. E sabe que tem gente que se ressente muito mais com isso do que com o foda-se?