Incrível o que a perda do medo da morte – ou de grande parte do significado de sua própria vida – proporciona a quem assim se sente; quantos bons momentos não vivenciamos por conta desse medo...
Hoje, depois de voltar do trabalho e tomar um banho, resolvi jantar fora, em uma lanchonete próxima ao mar. Finda a refeição, decidi ir à praia.
Praia em plena noite de uma sexta-feira, quem em sã consciência (da atual violência urbana) iria? Pois eu fui. Sem pensar muito. Se fosse assaltado, teria alguns trocados para entregar ao marginal. Ou, em outra hipótese, se ele não se satisfizesse com a pequena quantia, poderia matar-me, isso não faria tanta diferença assim. E cheguei na orla.
A poucos metros, um grupo praticava capoeira. Escolhi um cantinho tranqüilo longe daqueles rapazes e sentei-me na areia. Logo percebi que no raso do mar, quase à minha frente, uma pessoa jogava uma rede de pesca. Não me importei com isso e fiquei.
Enquanto fazia minha reflexão sobre a vida – que coisa mais adequada é o mar, para isso! – notei que um jovem casal caucasiano – coisa típica, esse biotipo, das abastadas famílias residentes na beira do mar – surgira ali, na entrada da praia. Hesitantes, não sabiam se desciam do calçadão para a areia ou não. Não foi muito difícil imaginar seu dilema: "Terem alguns momentos de privacidade para namorar e correr o risco de aumentarem as estatísticas de criminalidade da cidade ou voltarem para a indiscrição do condomínio e lá darem seus amassos, mas com segurança?"
Acabaram ficando no meio-termo: Nem na areia, nem no prédio. Ficaram lá, na calçada, sob a iluminação pública. E prossegui com meus pensamentos, entre brincadeiras na areia.
Tempo depois, sentindo-me saciado/conformado com a companhia das ondas e de um céu relativamente estrelado, levanto-me, sacudo a areia de minha roupa e sigo meu caminho de volta para o urbano.
Despedindo-me do mar vi que os capoeiristas ainda estavam em plena ação, os enamorados estavam envoltos num íntimo abraço e o pescador, este permaneceu indiferente a tudo; aos rapazes que tanto poderiam ser simples atletas quanto marginais, ao acanhado e receoso casalzinho querendo algo mais e, principalmente, a este quase quarentão que havia surgido do nada e lá havia ficado, sentado na areia, a esfregar suas pernas nestas e olhar para o infinito com um olhar ora contemplativo, ora meditativo, ora somente abobalhado...
3 comentários:
As vezes gostaria de caminhar na areia ouvindo o barulho da onda do mar e pensar na vida!
Ricardoooo fica com Deus!
Se cuida!
:-(
É, o mar é bonito...
Tranqüilizante...
Companheiro...
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