Só depois de ler reportagem em determinada revista semanal falando sobre o já tão falado "Tropa de elite" é que me animei a ir assisti-lo. E por um pequeno detalhe: Dizia ser um filme no qual bandidos eram de fato bandidos e assim tratados.
Porque eu já estava farto de ver filmes nacionais "glamourizando" a marginalidade. Na opinião de leigo que sou, eram a resposta para anos de repressão sob o comando da ditadura militar. Uma época na qual nem sempre prevalecia a razão. Inocentes foram perseguidos, torturados e mortos nesse tenebroso período? Evidente que sim. E somente por defenderem uma opinião que ia de encontro às dos governantes. Era uma guerra ideológica covarde e insâna, enfim.
Mas parece-me que muitos se agarraram a tal ponto nesse estandarte da democracia e dos direitos humanos que perderam a noção da fronteira entre a defesa de um ideal e a mera má índole humana em ansiar por poder, a qualquer preço. Nesse sombrio cenário surge o filme em questão, para esclarecer o que é bom e o que é ruim.
O traficante tem a "preocupação social" para com a comunidade. E é claro que tem, pois precisa granjear aliados em seu meio e defender seu "comércio". O "mauricinho" com cara de bom moço que veste a camisa branca da paz e desfila nas ruas com ar cândido sabe que sua maconha, a cocaína que consome alimenta o império que espalha a violência e o terror na cidade, mas "crê" que não está fazendo nada demais, pois ele próprio não é um marginal; é apenas um bem sucedido estudante, de familia tradicional e abastada...
E vem "Tropa de elite" para dar o tapa na cara dos hipócritas, dizer a verdade que todos conhecem mas ninguém tem coragem de admitir; que não adianta fazer cara de perplexidade ante crescentes índices de criminalidade enquanto fazem vista grossa para o consumo de entorpecentes. Eu francamente não chegaria a ponto de definir um usuário de drogas como um criminoso, mas daí a achar que ele é um coitadinho, uma vítima do sistema, que nenhuma culpa tem pelo enriquecimento do narcotráfico e seus tentáculos? Ah, faça-me o favor! É conivente, é consciente, é culpado também!
E como não poderia deixar de ser, levantam-se os Direitos Humanos em defesa dos humildes, dos
indefesos. Criticam a tortura praticada pelos integrantes do BOPE em suas incursões. Estranhamente, não defendem o cidadão honesto quando este sobre pressões psicológicas, agressões físicas e até chega ao óbito quando nas mãos dos marginais. Note-se que, ao menos pelo que se pode ver no filme, os policiais só recorrem à tortura – palavra que soa mal, mas não haveria outra para substituí-la – quando têm a certeza de que o torturado possui a informação inquirida. Por outros meios, quando e como o interrogado iria falar, iria delatar seu chefe, seu companheiro, seu vizinho de crime? Nunca!
Direito a permanecer calado, habeas-corpus ou abrandamento de pena, perspicazes e inescrupulosos advogados, morosidade da Justiça, tudo isso faria – e tem feito, em muitos dos casos – tudo acabar na velha conhecida de nós, brasileiros: a impunidade.
Por isso que este filme deu-me considerável... digamos, alívio, um certo bem-estar em ver desabafado o inconformismo com tudo o que há algum tempo vem se construindo neste país; a glorificação do marginal, como um Robin Wood moderno; um preço que temos que pagar pela desigualdade da distribuição de renda e algum suposto descaso do Poder Público para com as classes menos abastadas.
Vimos a justiça sendo feita com atroz violência, enfim.
Afinal, acharia alguém aí que traficantes dialogariam diplomaticamente, abandonando sua maior fonte de renda e de poder? Se alguém acredita nisso, que atire a primeira pedra.
Eu continuo aqui, achando que se é de fato assim que o BOPE trabalha, não poderiam estar fazendo-o de maneira mais apropriada. E, só para concluir, gostei do tom realístico do filme, pois não criou nenhum "Rambo", tampouco esqueceu-se de que a corrupção existe em todos os meios. Inclusive naqueles em que jamais deveria existir.
4 comentários:
Assisti ao "Tropa" e gostei muito, muito mesmo. Por alguns motivos que vc falou aqui, e também por outros não citados.
Achei que tratou realisticamente o problema: policial-bandido, policial-policial, bandido-bandido, bandido-policial e o principal: gente. De um lado e do outro rola pressão demais, dinheiro demais, armas demais, facilidades demais. Sai-se do trilho com um fechar de olhos.
Gostei do filme principalmente por mostrar a vida como ela é. Nem bons, nem maus: humanos. Quem hoje está de um lado, amanhã pode estar do outro.
E quanto ao usuário de droga, Ricardo, eu só acho que a criminalização da droga tem muito mais influência nesse resultado que aí está do que propriamente o uso da droga. Sou, pois, a favor da liberação de todas as drogas. Não consigo entender porque se permite umas (cigarro, bebida) e se proíbe todas as outras. Principalmente quando a proibição em si gera tantos mais males que o consumo do que se pretende inibir (lembre: a princípio, a droga só faz mal ao usuário).
Adorei também. Combate é combate, ninguém fica de fora ou é melhor levar "bronca da vovó". Combater droga, marginal, policial corrupto, mauricinho maconheiro. Basta passar a mão na cabeça de um apenas e a coisa toda vira Brasil !
Pat
5:34 PM
Faço coro com vocês. O filme superou minhas expectativas, achei que seria violência pela violência. Mas não, mostra a violência da polícia como reflexo da violência dos próprios banditos. Polícias e traficantes, todos sofrem - ironicamente, só quem financia fica bem nessa história...
Ana, quanto à liberação da droga, escrevi sobre as polêmicas propostas do PV neste post http://pseudoblog2.blogspot.com/2007/06/no-apoltico-mas.html ...
Cami, vejo ali a polícia "dando o troco" na mesma moeda e por falta de outra alternativa. Ou o que iria se resolver prendendo os marginais e levando-os ao tribunal? Nada, não é mesmo?
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