27.8.13

Cartas

Outrora, quando os solitários desejavam encontrar uma companhia mas não tinham coragem, disposição, enredo, ereção, verba ou outra coisa qualquer para irem à "caça" ao vivo, recorriam às cartas.

Ah, as cartas! Sim, estou falando sobre aquelas folhas de papel que vinham dentro de um envelope retangular e, geralmente, continham algo escrito. Se legível – ou inteligível– ou não, à parte...

Cartas, cartas...
Sim, eu escrevi muitas, recebi outras tantas. Embora à época estivesse procurando uma namorada, não desprezava nenhuma pretendente, mesmo que fosse alguém de uma cidade completamente desconhecida, de um estado mais abstrato que o Acre. E vinham (as cartas).

Tinha a carta cuja remetente escrevia tão mal –tanto gramaticalmente, quanto ortograficamente e também graficamente– que eu sequer conseguia decifrar seu nome e, se respondia, enviava uma pseudocarta, praticamente uma carta simbólica, dizendo "Oi, tudo bem? Obrigado por ter me escrito. Beijos!"
Geralmente funcionava e a pessoa desistia.

Mas a grande maioria dava pra ler, sim. Naquela época (minha adolescência) algumas me enchiam de orgulho: as perfumadas – hoje em dia eu estranharia muito, talvez nem gostasse. Carta perfumada eu pegava e cheirava profundamente, tal qual diabético inspirando o aroma de um pudim... e lia, com essa mesma tara. Aliás, esperança.

Só que eu era imaturo. E elas também.
E tudo se acabou em purpurina –que algumas faziam questão de colar nas bordas das cartas...

Um comentário:

Caminhante disse...

Também escrevi muitas cartas. Elas tinham uma beleza e uma expectativa que os e-mails e outros meios tecnológicos nunca alcançarão.