Amanheceu mais um dia chamado "útil", chuvoso. Eu, sem guarda-chuva nem outra alternativa, fui caminhando para pegar minha condução sob a água mesmo. A princípio, como qualquer mortal, lamentei.
Conforme ia caminhando, meus pensamentos bailavam sobre o tema, sobre a situação. Primeiro pensei na grande vantagem que haveria em chorar, aproveitando, além das gotas da chuva se misturando às lágrimas, meus óculos completamente impregnados de água, ocultando da curiosidade alheia os olhos marejados...
Tentei cantarolar mentalmente uma canção do Kid Abelha que justamente fazia menção a lágrimas e chuva, mas aquilo não me empolgou. E voltou-se meu pensamento a outro lado: O católico.
Ou, pra ser mais específico, o renovador carismático e seu emblema-mór: Padre Marcelo. Aquele mesmo do "Ergueeei... as mãos..." e seus baldes d'água benta no povo. Então olhei ao alto e imaginei a reprodução da mesma benção, só que em proporção divina. E sorri. Enfim entendi – ou concluí por conta própria – que aquele aguaceiro todo que me encharcava nada mais era que um benzimento de Deus.
Cheguei ao ponto (parada, para os pernambucanos) de ônibus acompanhado da chuva matinal. Roupas totalmente molhadas, vez ou outra, enquanto aguardava a chegada do coletivo, mirava o céu nublado e sorria. Uma cena que ninguém deve ter entendido, certamente. Ou deve ter imaginado-me como apenas mais um enlouquecido pela vida selvagem da cidade de pedra...
• • •
À noite, hora de voltar pra casa. Durante o dia eu trabalhara com um uniforme sequinho e por isso não havia ficado com nenhum resquício do "banho" da manhã, mas... e quanto às roupas? Pois é, guardadas num armário nem puderam secar; ainda estavam úmidas. Como não havia outra opção, vesti-as assim mesmo e segui meu caminho.
Dentro do ônibus é que comecei a pensar no cheiro. Sim, porque roupas molhadas da chuva raramente ficam com um odor agradável. E passei a ter a incômoda impressão de que alguns mais próximos de mim olhavam-me com certo desagrado.
Discretamente cheirei-me e, sinceramente, não senti tanta ojeriza assim.
Mas sabe quanto você coloca em sua cabeça que todos ali estão te notando e reprovando? De repente é só mera coincidência, mas acaba preocupando. A mim pelo menos preocupa. E comecei a me sentir o mais desprezível dos seres.
Tive até vontade de, numa tresloucada atitude para salvar minha reputação, declarar para todos os presentes, em alto e bom som, que eu estava com aquele cheiro porque estava sem guarda-chuva, havia tomado chuva de manhã e estava sem roupas secas para vestir depois. Mas até parece que um cara acanhado como eu seria capaz disso.
Enfim, passei a viagem toda em pé, encolhido de vergonha, e pensando que preciso comprar logo um guarda-chuva...
: /
30.1.08
24.1.08
Será que entendi direito?
Não sei se foi desatenção minha ao acompanhar o Jornal Nacional nesta noite, mas duas notícias me causaram estranheza:
"2 carros roubados na Itália são localizados aqui no Brasil após denúncia do país europeu; um Porshe e uma Mercedes ... que serão leiloados aqui mesmo, pelo Brasil." Leiloados??
Deixe-me ver se entendi, parte I:
– Não devolverão os carros, apesar de seus vultosos valores e estarem intactos. (E possivelmente ser de conhecimento das autoridades italianas seus respectivos proprietários legais)
Concluo que aqui no Brasil o crime compensa. Até mesmo o praticado em outro continente.
"Prefeitura de Recife irá distribuir pílulas 'do dia seguinte' em postos de saúde durante o carnaval."
Deixe-me ver se entendi, parte II:
– O grande vilão da libertinagem carnavalesca era a AIDS. Ao menos é o que dá a se entender; porque nunca vi alguém fazer uso de tais pílulas se tivesse usado o preservativo. A menos que a prefeitura esteja se prevenindo contra um surto – um grande lote de produtos defeituosos, talvez, – a preocupação deve ser com a explosão demográfica. Tão somente.
"2 carros roubados na Itália são localizados aqui no Brasil após denúncia do país europeu; um Porshe e uma Mercedes ... que serão leiloados aqui mesmo, pelo Brasil." Leiloados??
Deixe-me ver se entendi, parte I:
– Não devolverão os carros, apesar de seus vultosos valores e estarem intactos. (E possivelmente ser de conhecimento das autoridades italianas seus respectivos proprietários legais)
Concluo que aqui no Brasil o crime compensa. Até mesmo o praticado em outro continente.
"Prefeitura de Recife irá distribuir pílulas 'do dia seguinte' em postos de saúde durante o carnaval."
Deixe-me ver se entendi, parte II:
– O grande vilão da libertinagem carnavalesca era a AIDS. Ao menos é o que dá a se entender; porque nunca vi alguém fazer uso de tais pílulas se tivesse usado o preservativo. A menos que a prefeitura esteja se prevenindo contra um surto – um grande lote de produtos defeituosos, talvez, – a preocupação deve ser com a explosão demográfica. Tão somente.
22.1.08
18.1.08
O pescador
Incrível o que a perda do medo da morte – ou de grande parte do significado de sua própria vida – proporciona a quem assim se sente; quantos bons momentos não vivenciamos por conta desse medo...
Hoje, depois de voltar do trabalho e tomar um banho, resolvi jantar fora, em uma lanchonete próxima ao mar. Finda a refeição, decidi ir à praia.
Praia em plena noite de uma sexta-feira, quem em sã consciência (da atual violência urbana) iria? Pois eu fui. Sem pensar muito. Se fosse assaltado, teria alguns trocados para entregar ao marginal. Ou, em outra hipótese, se ele não se satisfizesse com a pequena quantia, poderia matar-me, isso não faria tanta diferença assim. E cheguei na orla.
A poucos metros, um grupo praticava capoeira. Escolhi um cantinho tranqüilo longe daqueles rapazes e sentei-me na areia. Logo percebi que no raso do mar, quase à minha frente, uma pessoa jogava uma rede de pesca. Não me importei com isso e fiquei.
Enquanto fazia minha reflexão sobre a vida – que coisa mais adequada é o mar, para isso! – notei que um jovem casal caucasiano – coisa típica, esse biotipo, das abastadas famílias residentes na beira do mar – surgira ali, na entrada da praia. Hesitantes, não sabiam se desciam do calçadão para a areia ou não. Não foi muito difícil imaginar seu dilema: "Terem alguns momentos de privacidade para namorar e correr o risco de aumentarem as estatísticas de criminalidade da cidade ou voltarem para a indiscrição do condomínio e lá darem seus amassos, mas com segurança?"
Acabaram ficando no meio-termo: Nem na areia, nem no prédio. Ficaram lá, na calçada, sob a iluminação pública. E prossegui com meus pensamentos, entre brincadeiras na areia.
Tempo depois, sentindo-me saciado/conformado com a companhia das ondas e de um céu relativamente estrelado, levanto-me, sacudo a areia de minha roupa e sigo meu caminho de volta para o urbano.
Despedindo-me do mar vi que os capoeiristas ainda estavam em plena ação, os enamorados estavam envoltos num íntimo abraço e o pescador, este permaneceu indiferente a tudo; aos rapazes que tanto poderiam ser simples atletas quanto marginais, ao acanhado e receoso casalzinho querendo algo mais e, principalmente, a este quase quarentão que havia surgido do nada e lá havia ficado, sentado na areia, a esfregar suas pernas nestas e olhar para o infinito com um olhar ora contemplativo, ora meditativo, ora somente abobalhado...
Hoje, depois de voltar do trabalho e tomar um banho, resolvi jantar fora, em uma lanchonete próxima ao mar. Finda a refeição, decidi ir à praia.
Praia em plena noite de uma sexta-feira, quem em sã consciência (da atual violência urbana) iria? Pois eu fui. Sem pensar muito. Se fosse assaltado, teria alguns trocados para entregar ao marginal. Ou, em outra hipótese, se ele não se satisfizesse com a pequena quantia, poderia matar-me, isso não faria tanta diferença assim. E cheguei na orla.
A poucos metros, um grupo praticava capoeira. Escolhi um cantinho tranqüilo longe daqueles rapazes e sentei-me na areia. Logo percebi que no raso do mar, quase à minha frente, uma pessoa jogava uma rede de pesca. Não me importei com isso e fiquei.
Enquanto fazia minha reflexão sobre a vida – que coisa mais adequada é o mar, para isso! – notei que um jovem casal caucasiano – coisa típica, esse biotipo, das abastadas famílias residentes na beira do mar – surgira ali, na entrada da praia. Hesitantes, não sabiam se desciam do calçadão para a areia ou não. Não foi muito difícil imaginar seu dilema: "Terem alguns momentos de privacidade para namorar e correr o risco de aumentarem as estatísticas de criminalidade da cidade ou voltarem para a indiscrição do condomínio e lá darem seus amassos, mas com segurança?"
Acabaram ficando no meio-termo: Nem na areia, nem no prédio. Ficaram lá, na calçada, sob a iluminação pública. E prossegui com meus pensamentos, entre brincadeiras na areia.
Tempo depois, sentindo-me saciado/conformado com a companhia das ondas e de um céu relativamente estrelado, levanto-me, sacudo a areia de minha roupa e sigo meu caminho de volta para o urbano.
Despedindo-me do mar vi que os capoeiristas ainda estavam em plena ação, os enamorados estavam envoltos num íntimo abraço e o pescador, este permaneceu indiferente a tudo; aos rapazes que tanto poderiam ser simples atletas quanto marginais, ao acanhado e receoso casalzinho querendo algo mais e, principalmente, a este quase quarentão que havia surgido do nada e lá havia ficado, sentado na areia, a esfregar suas pernas nestas e olhar para o infinito com um olhar ora contemplativo, ora meditativo, ora somente abobalhado...
14.1.08
Post bipolar...
... mas com extremos diferentes.
(Trilha sonora: Óperas)
Se eu morresse amanhã. Ah, se eu morresse.
Não sentiria pesar em deixar esta terra. Não esta Terra, mas sim esta terra.
Não desmerecerei o mérito de todos os que até hoje vieram – e ainda vêm – ofertando-me simpática e receptivamente o conforto da sincera amizade para que eu pudesse – e possa – sentir-me em casa, mas por maior, intenso e carinhoso que seja este empenho, esta sensação não me nasce aqui dentro do peito. Ao contrário, vive aqui um coração que bate resignado, conformado com o caminho escolhido. Um certo caminho e caminho certo. Mas não isento da saudade da terra natal.
Terra tal qual outra qualquer, que assim como esta na qual hoje estou, também já me deixou solitário como uma gota de água em pleno mar – já ouviu falar da expressão "solitário no meio da multidão"? – mas que sempre voltava-me os olhos da compaixão e trazia o consolo, algum consolo. Éramos conhecidos, enfim. São Paulo por vezes foi-me uma babá desleixada, abandonando-me à minha própria sorte – que por vezes não era sorte, era o mais autêntico azar mesmo – mas sempre retornava. Vigilante, por vezes tardia, mas sempre atenta aos meus prantos. Cidade que me criou, cidade na qual me criei.
Cidade cruel, cidade apaixonante. Cidade natal. E de meus natais, de meus pais.
Pai, Mãe, amo-os eternamente! Ou enquanto minha sã consciência mantiver em minha lembrança o fato de que de vocês sou a criação. Amigos que lá fiz, sei que a maioria de vocês jamais lerá estas chorosas linhas, mas saibam que são únicos. Inimitáveis. Lugares, famosos ou não, a São Paulo pertencem. E de lá dignos são. A alegria e a tristeza paulistana somente de lá podem ser. Assim como um ardoroso paulistano, onde quer que esteja, àquele lugar estará intrinsecamente ligado, quer queira, quer não.
E eu quero.
(Trilha sonora: Rock internacional, década de 70 e 80)
E amanheço a segunda-feira disposto a começar bem a semana na empresa. Bem-humorado,
conversando sobre amenidades com os que tenho pouca intimidade e sobre bobagens mais
descontraídas com os mais íntimos. Mas a alegria do pobre dura pouco, já nos ensinava o milenar
(milenar?? Ou é centenário? Secular? Ah, sei lá!) ditado e, como todo ditado que se preze, logo provou-se a força de sua verdade ainda antes – muito antes, aliás, era umas 10 da manhã – do almoço: Um serviço que eu havia realizado na semana passada havia retornado. E com conseqüências nada agradáveis decorrentes de um deslize (esquecimento) que eu havia cometido. Poupo-os, assim como poupo-me dos detalhes – agora quero é esquecer mesmo!! – e só digo que a partir daí o dia se seguiu no mesmo ritmo; ou com notícias ruins, ou com fatos ruins tendo-me, ora como coadjuvante, ora como ator principal.
Foi, enfim, uma merda de dia. Quase que a síntese da semana passada em um único dia. Mas não vou praguejar sobre o tão ansiado e batalhado emprego, não; se foi batalhado, hei de continuar sendo o soldado na trincheira a vencer, principalmente, meus próprios limites e minha falta de paciência com tudo e todos.
Mas que no final do expediente, já sem a presença de nenhum cliente por perto não resisti... ah! Não mesmo! Questionado pelo chefe sobre um serviço o qual eu deveria ter dado início mas não pude devido a circunstâncias alheias à minha boa vontade, expliquei o porque e arrematei: "Quer saber? FODA-SE!!"
Lógico que não havia mandado meu chefe se f**** e sim aquele serviço e por isso ele arregalou-se. Outro colega que estava por perto ouviu meu inesperado desabafo e caiu na maior gargalhada. Acho que ele nunca havia me visto/ouvido falar palavrão antes. Mas e daí? Sou humano, não sou? Chego às tampas de "engolir sapos", não chego? Pois bem, dei-me à liberdade de ser o mais humano possível no final de um estressante expediente. E não me arrependi, pois o tresloucado manifesto já havia por mim sido calculado: O serviço estava inevitavelmente adiado para amanhã e eu já sabia de antemão.
Concluindo: O chefe compreendeu meu estado de exaltação e deu-me trégüa. Meu colega foi caminhando e rindo. O carro ficou mesmo para amanhã. E eu fiquei convicto de que às vezes é mesmo preciso "ligar o 'Foda-se!'" para ser feliz, como dizem alguns. Ou para, ao menos, sobreviver.
(Trilha sonora: Óperas)
Se eu morresse amanhã. Ah, se eu morresse.
Não sentiria pesar em deixar esta terra. Não esta Terra, mas sim esta terra.
Não desmerecerei o mérito de todos os que até hoje vieram – e ainda vêm – ofertando-me simpática e receptivamente o conforto da sincera amizade para que eu pudesse – e possa – sentir-me em casa, mas por maior, intenso e carinhoso que seja este empenho, esta sensação não me nasce aqui dentro do peito. Ao contrário, vive aqui um coração que bate resignado, conformado com o caminho escolhido. Um certo caminho e caminho certo. Mas não isento da saudade da terra natal.
Terra tal qual outra qualquer, que assim como esta na qual hoje estou, também já me deixou solitário como uma gota de água em pleno mar – já ouviu falar da expressão "solitário no meio da multidão"? – mas que sempre voltava-me os olhos da compaixão e trazia o consolo, algum consolo. Éramos conhecidos, enfim. São Paulo por vezes foi-me uma babá desleixada, abandonando-me à minha própria sorte – que por vezes não era sorte, era o mais autêntico azar mesmo – mas sempre retornava. Vigilante, por vezes tardia, mas sempre atenta aos meus prantos. Cidade que me criou, cidade na qual me criei.
Cidade cruel, cidade apaixonante. Cidade natal. E de meus natais, de meus pais.
Pai, Mãe, amo-os eternamente! Ou enquanto minha sã consciência mantiver em minha lembrança o fato de que de vocês sou a criação. Amigos que lá fiz, sei que a maioria de vocês jamais lerá estas chorosas linhas, mas saibam que são únicos. Inimitáveis. Lugares, famosos ou não, a São Paulo pertencem. E de lá dignos são. A alegria e a tristeza paulistana somente de lá podem ser. Assim como um ardoroso paulistano, onde quer que esteja, àquele lugar estará intrinsecamente ligado, quer queira, quer não.
E eu quero.
(Trilha sonora: Rock internacional, década de 70 e 80)
E amanheço a segunda-feira disposto a começar bem a semana na empresa. Bem-humorado,
conversando sobre amenidades com os que tenho pouca intimidade e sobre bobagens mais
descontraídas com os mais íntimos. Mas a alegria do pobre dura pouco, já nos ensinava o milenar
(milenar?? Ou é centenário? Secular? Ah, sei lá!) ditado e, como todo ditado que se preze, logo provou-se a força de sua verdade ainda antes – muito antes, aliás, era umas 10 da manhã – do almoço: Um serviço que eu havia realizado na semana passada havia retornado. E com conseqüências nada agradáveis decorrentes de um deslize (esquecimento) que eu havia cometido. Poupo-os, assim como poupo-me dos detalhes – agora quero é esquecer mesmo!! – e só digo que a partir daí o dia se seguiu no mesmo ritmo; ou com notícias ruins, ou com fatos ruins tendo-me, ora como coadjuvante, ora como ator principal.
Foi, enfim, uma merda de dia. Quase que a síntese da semana passada em um único dia. Mas não vou praguejar sobre o tão ansiado e batalhado emprego, não; se foi batalhado, hei de continuar sendo o soldado na trincheira a vencer, principalmente, meus próprios limites e minha falta de paciência com tudo e todos.
Mas que no final do expediente, já sem a presença de nenhum cliente por perto não resisti... ah! Não mesmo! Questionado pelo chefe sobre um serviço o qual eu deveria ter dado início mas não pude devido a circunstâncias alheias à minha boa vontade, expliquei o porque e arrematei: "Quer saber? FODA-SE!!"
Lógico que não havia mandado meu chefe se f**** e sim aquele serviço e por isso ele arregalou-se. Outro colega que estava por perto ouviu meu inesperado desabafo e caiu na maior gargalhada. Acho que ele nunca havia me visto/ouvido falar palavrão antes. Mas e daí? Sou humano, não sou? Chego às tampas de "engolir sapos", não chego? Pois bem, dei-me à liberdade de ser o mais humano possível no final de um estressante expediente. E não me arrependi, pois o tresloucado manifesto já havia por mim sido calculado: O serviço estava inevitavelmente adiado para amanhã e eu já sabia de antemão.
Concluindo: O chefe compreendeu meu estado de exaltação e deu-me trégüa. Meu colega foi caminhando e rindo. O carro ficou mesmo para amanhã. E eu fiquei convicto de que às vezes é mesmo preciso "ligar o 'Foda-se!'" para ser feliz, como dizem alguns. Ou para, ao menos, sobreviver.
Interpretando a venda
Reconheço que ultimamente os temas que venho abordando têm sido muito repetitivos e isso é maçante, mas acho que não tenho muita escolha, haja vista a minha pacata vidinha cíclica que raramente sai do loop casa-trabalho-casa. Pois bem, e feita esta mea culpa, aqui vão mais palavras sobre o meu cotidiano profissional...
Sempre tive o hábito de vender ao cliente apenas o necessário, aquilo que de fato seria imprescindível e por completo. Com um exemplo prático fica mais fácil esclarecer o que estou tentando dizer: Existe um líquido, conhecido como aditivo, que é colocado no radiador. Este produto é vendido em vasilhas de 1 litro.
Eu, até ainda há pouco, era incapaz de vender um. E por quê? Porque praticamente todos os veículos que lá na oficina vão parar não precisam de um litro. No máximo, de meio.
Com o passar do tempo fui notando que era – e ainda é – prática comum vender o litro e não consumí-lo todo. "E o que acontece com o que sobra?" alguns devem estar questionando, não é mesmo? Respondo: É guardado e utilizado em outros carros em que estejam faltando apenas um pouco. Não é entregue ao cliente que pagou pelo litro, se é isso que você imaginou.
A princípio comecei a me sentir desconfortável com essa atitude, como se eu estivesse sendo desonesto. A bem da verdade, ainda hoje tenho essa incômoda sensação, mas em menor proporção depois que analisei a situação por uma ótica... mais aplicada ao consumidor-padrão de automóveis de alto nível, digamos.
É ponto pacífico que quem compra um Toyota novo não é, em hipótese alguma, um pobre. Ou um classe-média "se-equilibrando-na-corda-bamba". É rico e ponto.
Posto isso, vejamos como se porta um consumidor rico em um restaurante.
Pede o que lhe agrada sem titubear, às vezes aceita sugestões do maitre. Finda a refeição, paga a conta e se vai. Sem olhar pra trás a quantidade de comida e bebida que, embora aproveitáveis, abandonou sobre a mesa. E sem o mínimo remorso pelo desperdício.
A partir dessa visão comportamental dos mais abastados é que aderi à venda parcialmente necessária. É claro que isso não quer dizer que abracei a causa da "empurroterapia" comercial, mas que passei a "dançar conforme a música, vendendo ao cliente o que ele precisa, mas que poderá não usar por completo.
Até poderíamos oferecer o que sobra ao dono do carro, mas... francamente, acho que alguns deles jamais viram o que há por baixo do capô. No máximo sabem que ali está o motor. E suponho que certamente não têm a mínima vontade e tampouco interesse em pôr suas mãos lá, então...
Sempre tive o hábito de vender ao cliente apenas o necessário, aquilo que de fato seria imprescindível e por completo. Com um exemplo prático fica mais fácil esclarecer o que estou tentando dizer: Existe um líquido, conhecido como aditivo, que é colocado no radiador. Este produto é vendido em vasilhas de 1 litro.
Eu, até ainda há pouco, era incapaz de vender um. E por quê? Porque praticamente todos os veículos que lá na oficina vão parar não precisam de um litro. No máximo, de meio.
Com o passar do tempo fui notando que era – e ainda é – prática comum vender o litro e não consumí-lo todo. "E o que acontece com o que sobra?" alguns devem estar questionando, não é mesmo? Respondo: É guardado e utilizado em outros carros em que estejam faltando apenas um pouco. Não é entregue ao cliente que pagou pelo litro, se é isso que você imaginou.
A princípio comecei a me sentir desconfortável com essa atitude, como se eu estivesse sendo desonesto. A bem da verdade, ainda hoje tenho essa incômoda sensação, mas em menor proporção depois que analisei a situação por uma ótica... mais aplicada ao consumidor-padrão de automóveis de alto nível, digamos.
É ponto pacífico que quem compra um Toyota novo não é, em hipótese alguma, um pobre. Ou um classe-média "se-equilibrando-na-corda-bamba". É rico e ponto.
Posto isso, vejamos como se porta um consumidor rico em um restaurante.
Pede o que lhe agrada sem titubear, às vezes aceita sugestões do maitre. Finda a refeição, paga a conta e se vai. Sem olhar pra trás a quantidade de comida e bebida que, embora aproveitáveis, abandonou sobre a mesa. E sem o mínimo remorso pelo desperdício.
A partir dessa visão comportamental dos mais abastados é que aderi à venda parcialmente necessária. É claro que isso não quer dizer que abracei a causa da "empurroterapia" comercial, mas que passei a "dançar conforme a música, vendendo ao cliente o que ele precisa, mas que poderá não usar por completo.
Até poderíamos oferecer o que sobra ao dono do carro, mas... francamente, acho que alguns deles jamais viram o que há por baixo do capô. No máximo sabem que ali está o motor. E suponho que certamente não têm a mínima vontade e tampouco interesse em pôr suas mãos lá, então...
8.1.08
Estranho inquilino
Era uma vez um papagaio.
Vivia constantemente aprisionado em uma grande gaiola, exposta na calçada. Como desde pequeno sempre simpatizei com esse bichinho, passei a alimentá-lo e ele não se fazia de rogado, aceitava de bom grado o cereal que eu lhe ofertava.
Até que, em certo final de tarde, resolvi libertá-lo do cárcere: Levantei a gaiola – esta estranhamente era aberta na parte inferior – e o fiz voar para fora, para o ar livre. Me dei por satisfeito ao vê-lo livre e segui meu caminho. Mas logo notei que não estava mais desacompanhado; havia alguma coisa pousada na minha nuca e, claro, só podia mesmo ser ele. O papagaio.
A princípio me senti um pouco incomodado – afinal, é um bocado estranha a sensação de uma ave pousada em sua própria nuca – mas, apesar do absurdo da situação, lembrei da célebre imagem do papagaio de pirata e, ainda estranhando meu novo companheiro ali atrás, perguntei-lhe:
– Acho que você não é papagaio de pirata, né?
– "Não é" – respondeu-me. E prosseguí o breve e inusitado diálogo:
– Então agora vai ficar aí?
– "Vai ficar."
E começou a bicar o colarinho da minha blusa, que era feita de lã de carneiro ou algo parecido. Como se estivesse a ajeitar seu ninho naquele lugar. Acabei cedendo à convicção do papagaio e não lhe fiz mais perguntas e ele continuou em sua obra, como se fosse a coisa mais natural do mundo fazer ninho em colarinho de pedestres. E lá fomos nós, eu e meu caronista. Ou seria hóspede?
Óbvio que esta historinha é fictícia. Na verdade, foi o sonho que tive na noite passada. E de manhã, desperto, fiquei tentando descobrir qual poderia ter sido a mensagem que ela me passara. Ou havia tentado passar; "Tu és eternamente responsável por aquilo que cativas" (ou algo quase assim? É uma frase conhecidíssima) ? Amigo que concorda com tudo o que você diz tem segundas intenções? Quanto mais você ajuda, mais o ajudado quer? Ou foi só mais um sonho bobo mesmo?
(: p
Vivia constantemente aprisionado em uma grande gaiola, exposta na calçada. Como desde pequeno sempre simpatizei com esse bichinho, passei a alimentá-lo e ele não se fazia de rogado, aceitava de bom grado o cereal que eu lhe ofertava.
Até que, em certo final de tarde, resolvi libertá-lo do cárcere: Levantei a gaiola – esta estranhamente era aberta na parte inferior – e o fiz voar para fora, para o ar livre. Me dei por satisfeito ao vê-lo livre e segui meu caminho. Mas logo notei que não estava mais desacompanhado; havia alguma coisa pousada na minha nuca e, claro, só podia mesmo ser ele. O papagaio.
A princípio me senti um pouco incomodado – afinal, é um bocado estranha a sensação de uma ave pousada em sua própria nuca – mas, apesar do absurdo da situação, lembrei da célebre imagem do papagaio de pirata e, ainda estranhando meu novo companheiro ali atrás, perguntei-lhe:
– Acho que você não é papagaio de pirata, né?
– "Não é" – respondeu-me. E prosseguí o breve e inusitado diálogo:
– Então agora vai ficar aí?
– "Vai ficar."
E começou a bicar o colarinho da minha blusa, que era feita de lã de carneiro ou algo parecido. Como se estivesse a ajeitar seu ninho naquele lugar. Acabei cedendo à convicção do papagaio e não lhe fiz mais perguntas e ele continuou em sua obra, como se fosse a coisa mais natural do mundo fazer ninho em colarinho de pedestres. E lá fomos nós, eu e meu caronista. Ou seria hóspede?
Óbvio que esta historinha é fictícia. Na verdade, foi o sonho que tive na noite passada. E de manhã, desperto, fiquei tentando descobrir qual poderia ter sido a mensagem que ela me passara. Ou havia tentado passar; "Tu és eternamente responsável por aquilo que cativas" (ou algo quase assim? É uma frase conhecidíssima) ? Amigo que concorda com tudo o que você diz tem segundas intenções? Quanto mais você ajuda, mais o ajudado quer? Ou foi só mais um sonho bobo mesmo?
(: p
5.1.08
Dois corpos não ocupam o mesmo espaço... por pouco!
LOTAÇÃO: 42 PASSAGEIROS SENTADOS
É o que está escrito em uma discreta plaqueta afixada próxima ao motorista do coletivo que pego diariamente para ir trabalhar. Conscientemente nada consta sobre a quantidade de passageiros em pé, pois essa é uma incógnita a qual talvez só o cobrador saiba a resposta. E mesmo assim, aproximada.
Porque nos esprememos onde há espaço. Ou onde conseguirmos pisar, nem que seja sobre um pé alheio. Nos amassamos, nos contorcemos, nos acotovelamos e... olha mais passageiro subindo na próxima parada aí, gente!
E a gente se segura como pode. E às vezes nem pode. Quando muito, nem precisamos nos segurar, pois somos prensados no meio de tantos passageiros. Nessa hora que me perdoem quem encoxo, pois não sou somente o "algoz", mas quase sempre também mais uma vítima de alguém que se instala em nossa retaguarda. E nem adianta fazer cara feia. Pode ser proposital ou não, mas não tem jeito; é inevitável. E... te acalma que aí vem subindo mais passageiros, meu camarada!
Enfim, segue o ônibus urbano seu caminho, a sacolejar as sardinhas humanas a caminho de seus destinos.
E houve certa vez em que um motorista perguntou ao cobrador:
– Não cabe mais?
E ante a esperada negativa do segundo, reforcei a situação:
– Só se for por cima da cabeça das pessoas!!!
E ainda escreverei mais sobre este pequeno universo do meu cotidiano. Aguardem.
É o que está escrito em uma discreta plaqueta afixada próxima ao motorista do coletivo que pego diariamente para ir trabalhar. Conscientemente nada consta sobre a quantidade de passageiros em pé, pois essa é uma incógnita a qual talvez só o cobrador saiba a resposta. E mesmo assim, aproximada.
Porque nos esprememos onde há espaço. Ou onde conseguirmos pisar, nem que seja sobre um pé alheio. Nos amassamos, nos contorcemos, nos acotovelamos e... olha mais passageiro subindo na próxima parada aí, gente!
E a gente se segura como pode. E às vezes nem pode. Quando muito, nem precisamos nos segurar, pois somos prensados no meio de tantos passageiros. Nessa hora que me perdoem quem encoxo, pois não sou somente o "algoz", mas quase sempre também mais uma vítima de alguém que se instala em nossa retaguarda. E nem adianta fazer cara feia. Pode ser proposital ou não, mas não tem jeito; é inevitável. E... te acalma que aí vem subindo mais passageiros, meu camarada!
Enfim, segue o ônibus urbano seu caminho, a sacolejar as sardinhas humanas a caminho de seus destinos.
E houve certa vez em que um motorista perguntou ao cobrador:
– Não cabe mais?
E ante a esperada negativa do segundo, reforcei a situação:
– Só se for por cima da cabeça das pessoas!!!
E ainda escreverei mais sobre este pequeno universo do meu cotidiano. Aguardem.
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