E depois da balada, minha solitária excursão (ou o certo seria 'incursão'?) ao motel. Como não gosto de ser repetitivo - tento ao máximo evitar isso - o escolhido dessa madrugada foi o Censiv, que estrategicamente fica ao lado do "Classe A", logo depois dele e, imagino, deva beneficiar-se com os clientes que se assustam com as tarifas deste.
Na portaria sou informado que não havia nenhuma suíte disponível.
- Nenhuma? - retruquei
- Nenhuma. - confirmou laconicamente a recepcionista.
Mas é claro! Numa madrugada de sábado para domingo quê mais eu poderia esperar? Ainda mais naquele horário (aproximadamente 3 para 4 horas do domingo), quando a maioria dos casais pré ou pós-formados na balada já se cansou de dançar e beber e, entregando os pontos ao desejo ou a uma boa cantada já partiu em busca de diversões a dois? Hum. E enquanto eu permanecia mergulhado nestes pensamentos, volta a recepcionista à janelinha:
- Senhor, estamos liberando uma suíte agora.
- Tem hidro? - perguntei. "Tem hidro e cadeira erótica", respondeu-me. "Pô, cadeira erótica no meu caso é completamente dispensável" - pensei e perguntei:
- E não tem previsão de nenhuma outra, a não ser essa?
- Não senhor. (e ficou me olhando com a evidente expressão de "E aí, vai querer ou não? Resolve logo! ")
Eu estava cansado, ansioso por um banho de imersão e aquela relaxada depois, vendo um filminho e acabei cedendo; meio que à contragosto, pois pagaria por um opcional o qual não iria usufruir (a cadeira, evidentemente). E assim, fui orientado a aguardar na garagem da tal suíte e pra lá me dirigi. Estacionei, abaixei o portão e fiquei esperando. Era possível ouvir o ruído da limpeza em andamento.
O tempo foi passando e nada da suíte ficar pronta; bem provável que o casal que havia ocupado-a tivesse feito uma bandalheira (pra não dizer coisa pior) lá dentro. Enquanto isso, minha bexiga foi ficando apertada, apertada... Ah! O inevitável efeito colateral da cerveja! Ainda segurei por alguns minutos, antes de bater na porta. Eu sabia que a faxineira estava lá dentro pelo barulho de seu trabalho. Só que fui ignorado. Agora, com a cabeça mais fria, entendo as razões dela. Vai que, ao abrir a porta, adentra um tarado com 'a coisa' em riste e a ataca? É, estava certa ela. Só que naquele momento minha continência urinária forçada nem queria saber. Esmurrar a porta implorando pra deixar entrar porque eu estava quase urinando nas calças seria arriscado, pois a faxineira poderia se apavorar e acabar interfonando para a recepção chamando o segurança para expulsar um maluco. E eu seria chutado do local, antes que tivesse tempo para me explicar. Levantei o portão e saí às pressas, a procura de alguma salvação. Pelo corredor, apenas garagens fechadas. Caminhei até a entrada, na esperança de conseguir falar com a recepcionista e expor-lhe meu drama. Foi em vão. Não havia nenhuma janela ou porta, ali. Apenas o sólido portão pelo qual eu havia cruzado ao entrar no estabelecimento.
Olhei em redor buscando alguma guarita, um banheiro dos funcionários e... OH! Avisto no outro lado do portão uma saleta iluminada. "Estou salvo!", pensei, "O segurança deve estar ali e com certeza me indicará um banheiro!!" e lá entrei. E tive uma das maiores decepções da noite: Não havia ninguém, lá. Apenas algumas mesinhas, cadeiras e uma pequena tv falando às moscas. Concluí que tratava-se da sala de espera... e sem banheiro! Voltei a caminhar apressadamente pelo penumbroso corredor, pra ver se minha suíte estava enfim liberada, mas... qual o quê! Ainda estava trancada!!
Não pensei duas vezes e saí da garagem novamente, desta vez disposto a me aliviar a qualquer custo, caso contrário seria obrigado a chamar uma tinturaria em plena madrugada. Ladeando o corredor havia uma jardineira. Só que eu considero demais as plantas e seria incapaz de fazer uma coisa destas com as inocentes flores que não tinham culpa alguma da minha bebedeira. E fui indo, indo, até a extremidade desse corredor. E o que se via dali é que era apenas um vértice entre dois corredores identicamente desertos. Reparei então que naquele trecho da jardineira não haviam flores, apenas terra e algumas pedras. Olhei pra um lado, pro outro, não avistei uma alma viva sequer por ali e então não tive mais dúvidas; foi lá mesmo que "reguei" a terra. (alívio!)
Agora, enquanto estou escrevendo, penso na grande probabilidade de que haviam câmeras de segurança filmando toda a minha odisséia em busca de um sanitário, e o máximo que o responsável pelo monitoramento fez deve ter sido torcer a cara ao ver um sujeito fazendo sua necessidade fisiológica na jardineira e exclamar: "Tsc! Mas bêbado é uma desgraça mesmo, hunf!". Puxa, mas nem pra mandar um segurança me abordar e tomar conhecimento da situação? Bem, agora já foi, né. E, por incrível que pareça, depois de tudo isso a faxineira ainda estava lá, a lavar alguma coisa. Deve mesmo ter sido um bacanal, a breve estadia dos ocupantes anteriores daquela suíte. Mas nem me importei mais com a demora e sentei-me dentro carro, suspirando aliviado. Minutos depois, era anunciada a abertura da suíte.
Suíte duplex: No térreo, sala de jantar e hidro; no pavimento superior, a suíte propriamente dita (cama, banheiro, chuveiro). A primeira coisa a ser feita, claro, encher a banheira. Enquanto isso, a "mini-exploração" do terreno, ligando a tv e fuçando canais, olhando o que tem de bom no frigobar, acendendo e apagando as luzes. E demorou, mas a banheira foi completada - até que era das grandes. Não perdi mais tempo e mergulhei.
A característica interessante desta hidro não está exatamente nela, mas no fato de haver considerável espaço livre em redor dela. Sendo que já conheci outras que mal possuíam espaço para deixar uma xícara de café nas suas bordas, nesta caberia tranqüilamente o almoço completo, e do casal. Ponto negativo para a pressão da água, mixuruca que só. Uma massagem simbólica, enfim.
No mesmo ambiente onde está instalada a banheira encontra-se a tal cadeira erótica. Observei-a atentamente e nada demais encontrei. Chega a assemelhar-se com um daqueles aparelhos de ginástica, só que sem os contrapesos. Não entendendo como poderia ser usado aquilo, procurei por algum manual de utilização e de fato havia um, fixado na parede. Embora protegido por uma capa acrílica, suas ilustrações já haviam perdido a nitidez. Ainda assim era possível ter uma noção das posições realizáveis e, não havia nenhuma que eu pudesse fazer sozinho, infelizmente. Até deitei-me nela e tentei inventar algo, mas foi em vão. Conclusão: Para os solitários como eu, a cadeira nada tem de erótica. E resolvo ir para a cama.
Saindo do azulejado e úmido piso daquele ambiente, dois degraus dão acesso à saleta de jantar. E foi no primeiro destes que meu pé deslizou como quiabo na manteiga e, numa fração de segundo, me vi estatelado no chão. Admito que em parte caí tão facilmente por estar embriagado, mas estou convicto de que o azulejo liso e os sinais de exagero de desinfetante no esfregão da faxineira ali usados também colaboraram para minha queda. Sorte que não bati a cabeça no degrau. E depois dessa eu aprendi: Jamais despreze o chinelinho fornecido pelo motel, pois ele pode salvar sua vida. Ou, no mínimo, poupá-lo de passar um enorme vexame ante sua(seu) companheira(o) de cama.
No mais, foi uma madrugada comum; a mesma cama (quadrada, que bom. Não simpatizo muito com as redondas), os mesmos filminhos, o mesmo ar-condicionado que não gelava decententemente (ainda estou pra ver um motel que ofereça ar frio realmente frio...), a mesma noite "fria"... enfim.
: T
9 comentários:
Qual a graça de ficar sozinho num motel?[:o]
Nenhuma. Mas como não tenho mesmo quem levar junto, vou sozinho. Ao menos existe a "vantagem" que consigo reparar mais nos detalhes do local e produzir um texto. ( Desnecessário dizer que quando vou acompanhado nem perco tempo analisando a suíte, né? )
A primeira vez foi uma experiência-quase-desaforo. E acabei gostando. A bem da verdade, acho um desperdício de dinheiro – e energia – ir sozinho, mas acabei gostando...
( Não que eu prefira ir sozinho à ir acompanhado, claro)
Ah, essa experiência-quase-desaforo merecia ser contada aqui! ;)
Ricardo e a saga dos motéis! ehehehe
Sabe que nunca fui a um motel? Nem sozinha e muito menos acompanhada...
:/
P.S.: Mudanças no meu blog...
Ah, um dia eu vou ter uma cama redonda d'água! :D
Caminhante, essa primeira está aqui ( http://www.orkut.com/CommMsgs.aspx?cmm=61372&tid=1954203&start=1 ), embora não seja lá muito diferente desta.
: T
Essas histórias são ótimas e singulares! :)
Ricardo,
Você daria um ótimo colunista para revista especializada. :)
intiresno muito, obrigado
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