16.2.06

Enquanto isso, noutro local...

Este pequeno debate teve início em uma comunidade... ahn, "alternativa", lá no Orkut. Tudo começou quando eu me prestei a um momento de lamentação e minha amiga Lia respondeu. Eu, como não poderia deixar passar, trepliquei. E cá está:

EU: A abstinência sexual causa depressão?

Ontem saí de minha "toca", andei um pouco pela cidade. Respirar ares diferentes me fez bem, mas outra coisa me causou certo desconforto: A visão da abundância – sem trocadilhos baixos – feminina nas ruas. Parece que isso despertou o peso do longo período que tenho passado, sem ter nenhum contato sexual com uma mulher. E veio a tristeza.

Em parte, agravada pelo tempo que vejo se esvaindo impiedosamente, trazendo todas as suas marcas...
Sinto que estou perdendo um tempo valioso. E que quando eu 'puder', não mais 'conseguirei'.
Triste, triste.
: /

LIA: Ah... taí um aspecto da vida urbana moderna: andar na rua, ver um monte de gente (inclusive do sexo oposto) e não conhecer ninguém. Dá uma sensação de isolamento. Bom, é o que eu sinto e às vezes acho um pouco deprimente; mas gosto de andar na cidade assim mesmo.

O que causa depressão? Teríamos que saber quem veio primeiro, se o ovo ou a galinha. Isolamento? A tal abstinência (que pode ser resultado do isolamento)? Ou até mesmo a discriminação contra os solteiros? E por que existem nas pessoas que têm vida sexual ativa e mesmo assim parecem insatisfeitas?

Perguntas, perguntas, perguntas...

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Ora pois, se os que têm vida sexual ativa são tristes, é possível que o que lhes é farto torna-se tão banal que acaba perdendo a graça, talvez? Ou o 'foco' da felicidade não esteja numa relação sexual. Pode estar em devorar sozinho um caramelado pudim, por exemplo. Que o diga o diabético, né? Ou a mesma coisa no caso daquele que foi terminantemente proibido por seu médico de chegar perto de uma suculenta picanha na brasa, e lhe dói o coração – metaforicamente falando, claro – de saudades cada vez em que passa ao lado de uma churrascaria em plena atividade e seus desejos (comestivelmente) carnais são traiçoeiramente atiçados pelo olfato... Hum, coitado.

E a discriminação aos solteiros é um grave problema social. Não se pode ser solteiro neste mundo. Se é homem, é rotulado de homossexual (ou coisas piores); se é mulher, "converte-se" em sapatona ou frígida. E se – nós, os singles – resolvemos sair para nos divertirmos... ou ao menos, tentar, nos vemos forçados a assistir cenas... desafiadoras de certo ponto de vista, desaforadas de outro; os casais se beijando. Me revolto. Quando estou no balcão do bar, até que vá lá, deixo o casal se amassar à vontade ao meu lado, enquanto afogo minhas mágoas 'beijando' sofregamente a taça de chope, hunf. Pior ainda é na fila do caixa do supermercado, ou do banco. Ah, que raiva que me dá! Mas... onde eu estava mesmo? Ah sim, lembrei.

E o isolamento...
Pois é. Admito que tenho me isolado. Talvez, pela comodidade em passar o final de semana inteiro sentado em frente a este monitor, tão passivamente quanto um pé de alface. Sem enfrentar trânsitos, flanelinhas ou estacionamentos que nos exploram à vontade, a menos que vc pretenda se arriscar a deixar seu carro na rua e não mais encontrá-lo, na volta. Também independo de garçons que fingem não vê-lo ( ou, 'me ver' ) nunca, apesar das constantes tentativas com o dedo indicador levantado e "Ahn... por gentileza?" ... "Ô, por favor... " e outras menos cotadas. E também gasto bem menos dinheiro, é verdade, mas em (des)compensação, creio que não tenho me divertido tanto quanto o poderia, se me atrevesse a entrar na pista, como antigamente fazia – Sim! Eu já fui jovem, um dia. [enxergando-me como um velhinho entrevado] – e, entre desajeitados passos de dança e algumas pisadas nos pés de outrem; num conveniente esbarro , quem sabe, iniciar uma agradável conversa?

"Agradável conversa"? Num pista de dança? Sei não, viu...
Já viram como é, ou como costuma ser? Eis aqui uma hipotética abordagem em plena pista:
(evidentemente o som no local é ensurdecedor. O homem e a mulher estão dançando. Eles começam trocando olhares, e estes são retribuídos mutuamente com sorrisos; é a hora do ataque. E lá vai ele)

– Oi! Legal esta música, hein?
– Hein? Não entendi!
– Eu disse que esta música é legal! A MÚSICA É LEGAL!!
– Ah, é sim. (e ela continua com seus passos)

– Você vem sempre aqui?
– Oi, O quê??
– VOCÊ VEM SEMPRE AQUIII ?
– Ah, nem sempre! Hoje vim co... (e o DJ aumenta o volume, repentinamente)
– Hein? Você vem... o quê?
– Fala mais alto! Não tô te ouvindo!!
VOCÊ DISSE QUE HOJE VEIO, MAS NÃO ENTENDI O QUE, arf arf arf , QUE VOCÊ DISSE DEPOIS !! arf arf...
– Vim com a minha prima!
– O que? Com a sua tia?
– Nãããão. Com a minha PRIMAAA!
– Ah sim!

É, não ia dar certo mesmo...

(: /

2 comentários:

Caminhante disse...

Assim como o exemplo da abstinência de uma picanha, acho que tudo dependa da forma como o fato é encarado. Eu não como carne, não como picanha e não me sinto mal por isso. Outros, são proibidos e vêem nisso um motivo de infelicidade e exclusão social. Acho que isso tbm tem a ver nessa coisa de ser single...

(apaguei o outro por causa de um erro de português)

R. disse...

Ah, a falta (ou 'carência'mesmo, pra usar um termo tão em voga, hoje e sempre) de qualquer coisa...

Desde carrinhos de rolimã (quando eu era (mais) criança) a esbaldantes madrugadas numa banheira a dois... Oh, como é triste.

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