Que a informatização - e principalmente o acesso a internet e seus mais variados conteúdos - veio para agilizar nosso dia-a-dia, é fato consagrado e consumado (e consumido, também, diga-se de passagem). Mas dentre os avanços atingidos pela conseqüente revolução de costumes, ao menos um há, que me atrevo a considerar 'passo em falso': As cartas de amor.
Em tempos idos - ou, só para tentar impressioná-los, poderia dizer 'No século passado' - a missiva dos apaixonados era manuscrita. Não voltarei ao tempo do bico-de-pena e lamparina - que não sou tão idoso assim, hahaa - mas às áureas épocas em que a Bic reinava absoluta em punhos colegiais.
Embora mesmo que nessa época a criatividade não fosse imprescindível - pois nada impedia que os menos inspirados copiassem descaradamente alguns versos de um livro de poesias ou mesmo recorressem aos "manuais de redação sentimental" que existiam à venda, - as cartas eram mais autênticas.
Haviam naquelas folhas certas evidências que, se não de sinceridade, eram de estado de espírito. Quase sempre imperceptível ao remetente, o tracejado das linhas era variável (conforme seu humor). Ou que me contradiga quem possui a grafia inalterada; quer seja no momento eufórico, ou no melancólico, ou nas demais variantes.
Não sou grafólogo, mas afirmo que a escrita dos amantes 'sobre o mar de rosas sem espinhos' diferia, e muito, da feita pelos quase-neuróticos (de ciúme, talvez?), a perfurar e/ou quase rasgar o papel. Ou a do lado mais frágil - que tanto poderia ser a mulher, quanto o homem - e suas palavras mal desenhadas sobre uma folha que quase sempre chegava às mãos do outro com manchas provocadas por supostas lágrimas, nas temidas fases do "Vamos dar um tempo?" e suas trágicas conseqüências.
E tudo isso, sem nem falar sobre os envelopes perfumados...
Os coraçõezinhos desenhados com canetinha colorida...
E a assinatura, que vez ou outra vinha acompanhada do 'carimbo' de um autêntico beijo e seu rubro batom?
É... são coisas que não existem mais, hoje em dia. Pelo menos, não tanto quanto outrora.
Hoje, em poucas tecladas - que podem ser apenas o preenchimento dos dados básicos (remetente/destinatário) - e um ou dois cliques do mouse, é possível enviar para qualquer lugar do planeta - sem precisar pagar taxas postais e nem temer greve dos correios ou que sua caprichada cartinha chegue à sua amada (ou ao seu amado) toda amarrotada - exuberantes e ardorosas mensagens de amor. Com requintes de som e animação, dão um verdadeiro espetáculo de apresentação.
Jamais questionarei a autenticidade de sentimento de quem envia um cartão virtual, - ainda mais que eu mesmo também costumo enviar alguns, às vezes - só que destaco esse lado fraudável das cartas... ou, melhor dizendo, dos e-mails apaixonados: A falta do toque humano. Da personalidade. Do calor - ou da frieza, conforme o caso - humano...
Frescura minha? É, pode ser.
Mas temo o dia em que até o cafuné for virtual. Imagino algo assim: Utilizando-se de um capacete sensorial (seja lá o que for isso), o agraciado pelo cafuné online clicará no local indicado na tela (ou seja lá onde for) e imediatamente sentirá algo a acariciar seus próprios cabelos. Ugh!!
: o
5 comentários:
Adorei o capacete sensorial, mas prefiros os meios arcaicos de se fazer e receber carinho!
Te encontrei no flores de plastico.
Bjos - Ni
Mas eu também prefiro os meios naturais, uai! : )
E viva a Florzinha!!
: D
Hehehe, que texto ótimo, Ricardo. Eu era adepta das cartas cheias de fru-frus, com direito a remetente e destinatários escritos com letras recortadas de revistas. Nossa. E acho que, pelo lado sensorial da coisa, antes do capacete virtual e do cafuné, virão os cartões virtuais perfumados. O olfato será primeiramente agraciado no mundo cibernético do que o tato. :) Um abração.
Tá na hora de postar...
Gi:
Concordo com vc, pois dispositivos que exalam aromas já não são tão utópicos assim, no que se refere a internet. Certa vez li que os e-mails perfumados já estão em testes.
(No dia em que isso for de uso corriqueiro, mandarei mails com o perfume da verbena, meu incenso favorito! : )
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