19.3.05

Sucateiros

Dirigindo por estas ruas paulistanas fiquei a pensar nas pessoas que vivem do volante.
Já cheguei a conhecer um taxista que afirmava com total convicção que tinha abraçado a profissão por gostar de dirigir. Mesmo que numa capital estressante como esta. Fiquei admirado.
Certamente é um felizardo, ou... um menos infeliz, na selva de pedra. Mas creio que a grande maioria sofra, e muito, as agruras de se locomover de um ponto a outro...

A pressa sempre presente, indo a algum lugar, ou voltando de outro, ir receber ou entregar, cada qual com sua missão, carregando sua cruz de metropolitano. Vejo a quantidade de catadores de sucata e seus carrinhos aumentarem a cada dia, atrapalhando ainda mais o fluxo do trânsito, que já é moroso por si só. Antes eu ficava irado com isso, mas depois que passei a ver cada uma daquelas pessoas como um criminoso a menos em ação, passei a ser mais tolerante com esse estorvo adicional.

Todo pessimista irá dizer que são uns réles vagabundos que desprezaram a escola e caí­ram na bebida, mas conheço alguns que não se enquadram nesse estereótipo. Pais de famí­lia que, desempregados e excluí­dos por uma concorrência de mercado desigual, perderam tudo que possuíam, exceto a dignidade.
Com um carrinho improvisado, muitas vezes a carcaça enferrujada de uma geladeira velha sobre um eixo com duas rodas, vão coletando todo o material reciclável que os moradores depositam nas lixeiras ou simplesmente abandonam na via pública. Na tração, a força que reside nos braços e no peito de um brasileiro. Pés no chão e suor honesto completam o cenário.
O que é lixo e nada mais para alguns, para eles é o mirrado dinheiro que lhes possibilitará a sobrevivência, ainda que precária.

Portanto, ao avistar algum, tente fazer como eu.
Acredite que, se aquela pessoa não estivesse ali, a arrastar o carrinho e atrapalhando a passagem do seu carro, poderia muito bem estar armado e aumentando as estatí­sticas da criminalidade...

Um comentário:

Anônimo disse...

Muito bom! Adorei o texto, e o assunto também...
Quem vê situações como as desses homens de perto, aprende a ver com outros olhos... E muitas vezes isso é necessário e prudente...
Sempre q puder virei visitar, ok?
Abraço