27.8.13

Cartas

Outrora, quando os solitários desejavam encontrar uma companhia mas não tinham coragem, disposição, enredo, ereção, verba ou outra coisa qualquer para irem à "caça" ao vivo, recorriam às cartas.

Ah, as cartas! Sim, estou falando sobre aquelas folhas de papel que vinham dentro de um envelope retangular e, geralmente, continham algo escrito. Se legível – ou inteligível– ou não, à parte...

Cartas, cartas...
Sim, eu escrevi muitas, recebi outras tantas. Embora à época estivesse procurando uma namorada, não desprezava nenhuma pretendente, mesmo que fosse alguém de uma cidade completamente desconhecida, de um estado mais abstrato que o Acre. E vinham (as cartas).

Tinha a carta cuja remetente escrevia tão mal –tanto gramaticalmente, quanto ortograficamente e também graficamente– que eu sequer conseguia decifrar seu nome e, se respondia, enviava uma pseudocarta, praticamente uma carta simbólica, dizendo "Oi, tudo bem? Obrigado por ter me escrito. Beijos!"
Geralmente funcionava e a pessoa desistia.

Mas a grande maioria dava pra ler, sim. Naquela época (minha adolescência) algumas me enchiam de orgulho: as perfumadas – hoje em dia eu estranharia muito, talvez nem gostasse. Carta perfumada eu pegava e cheirava profundamente, tal qual diabético inspirando o aroma de um pudim... e lia, com essa mesma tara. Aliás, esperança.

Só que eu era imaturo. E elas também.
E tudo se acabou em purpurina –que algumas faziam questão de colar nas bordas das cartas...

Ao embaixador cubano

Senhor,

É com enorme revolta que escrevo esta carta. No entanto, nada a desabonar a honra do cidadão ou da cidadã de Cuba, muito pelo contrário, é por considerar inadmissíveis os lastimáveis fatos ocorridos recentemente, quando da chegada de médicos de vossa nacionalidade aqui em nossa terra, Brasil.

Embora a imprensa cubana tenha tido a condescendência de não dar ênfase alguma ao que aconteceu, é evidente que é de vosso conhecimento a agressividade e irracionalidade com que certos brasileiros recepcionaram os profissionais cubanos em solo brasileiro, vindos para trabalhar pela Saúde, pelo bem estar de nosso povo.

Por esse lamentável motivo tomei a iniciativa de vir, através destas linhas, demonstrar meu repúdio aos compatriotas que vaiaram e humilharam aos vossos filhos, envergonhando a muitos de nós , que nos vimos extremamente mal representados nesse incidente, e pedir humildemente desculpas pelo ocorrido.

Quisera eu ter trazido junto a esta carta um abaixo-assinado com centenas, milhares de assinaturas de outros brasileiros que, assim como eu, também se sentiram muito mal com tamanho absurdo, mas infelizmente não fui capaz de angariar o desejado apoio em tempo e por isso não esperei mais, e estou fazendo este pedido solitário; pouco representativo, mas muito sincero, garanto.

Embora eu não tenha sido nenhum dos presentes durante os incidentes, tampouco seja médico ou atue na área, não poderia ficar calado. Em consideração a muitos de nós que, apesar de não subscritos, igualmente reiteramos escusas a todos os envolvidos, seus familiares e amigos.

Grato pela atenção e consideração,