Existem certos locais aonde vou "por obrigação" ou por absoluta falta de opção e o mercado Bompreço é um deles. Eu tinha pontos remanescentes de um extinto cartão de fidelidade –que, a propósito, foi
encerrado por sua administradora sem justificativa alguma– e precisava gastá-los, com um vale-compra. E isso só poderia ser feito naquela loja.
Peguei alguns produtos no valor correspondente ao do vale e me dirigi à fila do caixa. Como de costume, lá estava aquela grande fila que sempre me desmotivava a fazer compras ali. Contudo, e conforme já dito no início, eu não tinha escolha. Resignado, enfileirei-me e aguardei.
Havia ali, na fila única do chamado "caixa rápido" –ou caixa para poucos volumes, para ser mais condizente com a realidade– vinte pessoas, aproximadamente. Na área dos caixas, de uns dez, apenas dois estavam funcionando. E nada da fila andar...
Repentinamente uma cliente, que estava pouco atrás de mim, começa a reclamar: "Mas isto é um absurdo! É uma falta de respeito! Só dois caixas e toda esta gente aqui esperando! Quem é o responsável por isso aqui?" Guardou seu lugar na fila e foi atrás de alguém que desse um jeito naquela morosidade.
Minutos depois retorna e continua seu discurso, em alto e bom som: "É por isso que essa porcaria não melhora; ninguém fala nada, ninguém faz nada, todo mundo fica aqui quietinho, só esperando..."
Sim, todo mundo. Eu inclusive. E me recordei da primeira vez em que entrei num Bompreço, aqui em solo pernambucano, há mais de 4 anos...
Era uma fila de poucas pessoas. Mas não avançava. Passava 5, 10, 20 minutos... e nada de eu conseguir passar minhas compras. Perdi a paciência e, tal qual aquela senhora de hoje, comecei a resmungar sem pudor algum. Falei, pra quem quisesse ou não ouvir, que "em São Paulo é que tinha um mercado decente, com atendimento eficaz" e tal...
Pois é, há mais de 4 anos.
E o que mudou desde então, desde este meu chilique numa fila? Nada.
As fileiras de caixas continuam sendo mais "decorativas" que funcionais e as pouquíssimas que são ocupadas, os são por funcionários sobrecarregados, desmotivados, que visivelmente não estão nem aí para as carrancas e praguejos dos clientes exaustos de esperar.
E então refleti...
Os comerciais de mercados daqui enfatizam o preço baixo e, no máximo, a qualidade e variedade de seus produtos. Não destacam o atendimento porque isso lhes é indiferente, irrelevante; o consumidor faz qualquer sacrifício para pagar menos, além de que, já está habituado a perder seu tempo em filas... devem pensar.
Assim, à custa da paciência do consumidor, empresários lucram empregando o mínimo possível de funcionários e pouco se importando com o stress a que estes se submetem. Perder a clientela para a concorrência só por causa disso? Pouco provável, pois o concorrente trabalha, igualmente, com a mesma filosofia de contenção de gastos e indiferença perante um ou outro cliente irritado em suas filas...
Num dos parágrafos anteriores eu havia mencionado que "em SP tinha um mercado decente..." e retomo o ponto pra corrigir: tinha e ainda tem, é o Andorinha, localizado na zona norte da capital. Este mercado é um dos poucos que já vi até hoje, que não se atém só na questão do preço, que não faz disso seu único estandarte e justificativa pra tudo. É um estabelecimento que preza também pelo conforto de seus clientes e a motivação de seus funcionários, conforme é possível constatar nestes
depoimentos no site da empresa.
Algum cético poderá até descrer de tantos elogios, achando tudo forjado e manipulado, mas se assim fosse, como iria se explicar o constante crescimento dessa loja que, a propósito, conheço há mais de duas décadas e que foi capaz de construir um shopping center anexo ao seu mercado?
Sim, muitos são os shopping centers que nasceram com mercados como loja âncora, mas já viram o inverso? É o Hiper Center Andorinha.
Agora voltemos ao grandalhão Walmart (dono do Bompreço). Vejam a notícia:
"
A rede de supermercados Wal-Mart informou nesta terça-feira que registrou um aumento de 3% no lucro do primeiro trimestre, com crescimento dos negócios no exterior e um rigoroso controle de custos."
Bem se vê de que se trata o tal "rigoroso controle de custos", não é mesmo?
E... por que será que lá nos EUA eles não lucram tanto? É algo em que os empresários pernambucanos –ou investidores de outros estados ou mesmo países– poderiam e deveriam pensar.