7.5.08

"Novela" e novela

Queria evitar o assunto mas não dá; todo jornal que você pega pra ler fala sobre, todo telejornal tem no mínimo um bloco inteiro só sobre. Você sabe, é o caso da menina que foi jogada da janela.

Não vou desmerecer a comoção que o acontecido provocou em todos, mas convenhamos, essa novela da vida real já se prolongou além dos limites (de nossa paciência). Diversos indícios e nenhuma prova incriminatória. Eu disse "indícios"? Somente o fato de ter sido comprovada a ausência da famosa terceira pessoa – nova designação para o tradicional bode expiatório, pelo visto – já teria sido, ao menos para mim – leigo que sou em criminalística mas com um mínimo de raciocínio e bom senso – prova suficiente da autoria do crime.

Mas não. Além da coleta de material de praxe no local do ocorrido, uma reconstituição. Com direito a àrea reservada para a imprensa e um pedido, sensatamente* negado pelas autoridades competentes, para que o espaço aéreo fosse interditado durante o espetác... digo, durante a reconstituição.

E os jornais cobrindo tudo a respeito, desde manifestantes – alguns, mais buscando holofotes que demonstrando uma sincera indignação com o caso da menina – a meticulosos relatórios da perícia que comprov... digo, que indiciavam o casal. Mas nada de condenação.

Me irritei a tal ponto que imaginei uma hipotética situação: Um vizinho teria estranhado a movimentação naquela noite e teria flagrado o crime, filmando tudo através de um celular. E isso não seria prova, seria apenas um indício: Indício de que a tal hora e tais minutos do dia tal um homem, com fisionomia idêntica a de A.N (ele, aquele), com estrutura corpórea extremamente próxima, vestindo uma camiseta exatamente igual a que o suspeito usava naquela noite e com a voz também parecida havia lançado uma criança daquela janela. Não seria prova, não. Seria indício. INDÍCIO. Iriam averiguar a qualidade da gravação. Um técnico questionaria a nitidez das imagens, o advogado de defesa levantaria suspeitas sobre a autenticidade da prov... digo, do indício: "Estão tentando incriminar meu cliente com uma falsa gravação usando um sósia!"

Pois é. E enquanto isso, impressos vendendo, jornais tendo audiência. Seria doentio demais de minha parte imaginar que algum beneficiado com o caso estaria incentivando a "novela"? A imprensa é evidente que alimentou-se disso. Mas e o caso dos gastos com cartões corporativos, alguém se lembra disso? Alguém dá bola para a Dilma Roussef se exaltando em defesa de gastos – melhor seria dizer "mordomias" mesmo – efetuados no governo do FHC? Não. Porque a imprensa nos sufoca com o caso da menina.

E agora o casal será preso. Fim da novela? Não aposto minhas fichas nisso. Fosse um caso ocorrido num local humilde, entre desconhecidos josés e marias, o inquérito teria durado poucas horas e o casal já estaria encarcerado. Mas como não foi...




E falando em novela, "Duas Caras" vai terminar. E já vai tarde, digo.
Depois que vi uma universidade privada tendo sua reitoria invadida no descarado plágio da real invasão de uma universidade pública e mais, tendo ali dentro um caso de gastos obscuros com cartões corporativos, deixei de levá-la a sério. Tudo bem que trata-se de uma ficção, mas é preciso um mínimo de personalidade, de persuasão, de lógica, para ser aturável. E ela não foi.
Desta novela reconheço apenas um mérito: O de ter destacado a beleza negra, e fugindo ao lugar-comum dos personagens, à estereotipização da mulher negra. Ao menos um pouco.


* Bastaria fazer um levantamento do movimento do espaço aéreo durante aquelas horas daquela noite, não?

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